sábado, 29 de novembro de 2008


Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança
Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade
Bom Conselho
Composição: Chico Buarque

domingo, 2 de novembro de 2008

Trampolim

Sem olhar, sem respirar
Sem rir, sem pensar, sem falar
Só te provo um lugar
Qualquer piscina ou mar de Amaralina

O amor não é mais do que o ato
Da gente ficar
No ar antes de mergulhar
Antes de mergulhar

Dance, dance, cante, cante
Muito alto, sem medo de tudo
De nada, sem medo de errar

Vejo uma boca vermelhar galhar
A paixão não é mais do que o ato
Da gente ficar
No ar antes de mergulhar
Antes de mergulhar

Maria Betânhia

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

E agora, José?

A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Como encarar a morte?


O Triunfo da Morte - Peter Brueghel

Uma pessoa que conhecia partiu, deixou seu corpo, mas a lembranças estarão em mim. E apesar da morte ser minha única certeza, por mais sabido, a ignoramos e ela vêm e novamente me passa uma rasteira.

Como encarar a morte.

Carlos Drummond de Andrade

De longe

Quatro bem-te-vis levam nos bicoso batel de ouro e lápis-lazúli, e pousando-o sobre uma acácia cantam o canto costumeiro. O barco lá fica banhado de brisa aveludada, açúcar, e os bem-te-vis, já esquecidos de perpassar, dormem no espaço.

À meia distância

Claridade infusa na sombra, treva implícita na claridade?Quem ousa dizer o que viu, se não viu a não ser em sonho?Mas insones tornamos a vê-lo e um vago arrepio vara a mais íntima pele do homem. A superfície jaz tranquila.

De lado

Sente-se já, não a figura, passos na areia, pés incertos, avançando e deixando verum certo cógifo de sandálias. Salvo rosto ou contorno explícito, como saber que nos procura o viajante sem identidade?Algum ponto em nós se recusa.

De dentro

Agora não se esconde mais. Apresenta-se, corpo inteiro, se merece nome de corpo o gás de um estado indefinível. Seu interior mostra-se aberto. Promete riquezas, prêmios,mas eis que falta curiosidade, e todo ferrão de desejo.

Sem vista

Singular, sentir não sentindo ou sentimento inexpresso de si mesmo, em vaso coberto de resina e lótus e sons. Nem viajar nem estar quedo em lugar algum do mundo, só o não saber que afinal se sabe e, mais sabido, mais se ignora.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O mundo das crises: uma análise miscelânea Camilana

Recentemente li uma pesquisa no DATA-FOLHA traçando o perfil da juventude hoje. Um artigo em especial, de um psicanalista chamado Contardo Calligaris, me chamou a atenção: A adolescência acabou? Sem nostalgias baratas, conservadoras e burras, não é esta intenção deste texto.
Nasci em 1984, e penso que se eu pudesse traçar uma marco na história do Brasil escolheria este ano. 1984 foi o ano-marco para a redemocratização do país, ano que marca a transição da ditadura para a democracia, ano de luta (?), ano em que ocorreu as Diretas Já, ano do livro de George Orwell (rs), muito atual naquela época e hoje (quem não leu vale a pena, é um clássico).
Ano de luta? Pois bem. Nasci em meio a esse furduncio e todo rearranjo da organização do sistema político, social, econômico, cultural, etc. e tal do país. Uma nostalgia de luta e um sistema voltado para o conhecimento matemático me acompanharam durante toda minha estadia no sistema educacional. De um lado alguns professores de história relembrando as lutas e conquistas dos movimentos que pediam a democratização do país e dizendo que os jovens, no caso nós, éramos o futuro do Brasil (quanta responsabilidade, hein?). E de outro lado, cinco aulas de matemática por semana, além de física e química e apenas três de história e três de geografia que se dividia em geo-física e geo-política. Enfim, de acordo com essa estruturação do sistema educacional, pra mim, me parece claro que a educação básica não estava voltada para o aluno pensar e refletir sobre sua realidade.
Mas essa angústia em meu peito, de uma história de luta e conquistas dos movimentos sociais me fascinavam, talvez por isso tenha escolhido fazer o curso de ciências sociais. Lembro-me bem de um professor de química, que vez o outra encontro nos corredores da UFES, fazer um questionamento em sala de aula sobre porquê o mapa do mundo se posicionava daquela maneira se de acordo com o espaço não há referencial que indique que o norte é para cima e o sul para baixo. Aquilo ficou encafifado na minha cabeça por um bom tempo, tanto que comento aqui.
Mas como em tudo na vida existem porém’s. Tudo bem, ficamos sabendo que Betinho Souza, Henfil, Darcy Ribeiro, Zuzu Angel e os tropicalistas Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, lutaram pelo direito da democracia e o direito de vender seus livros e discos e enterrar seus filhos. Mas a minha mãe e o meu pai não sabem de nada disso, assim como a mãe e pai de muitos amigos, e a minha avó nem sabe o que é ditadura.
Outro porém, acreditava-se que a democracia resolveria os problemas do Brasil, andava-se com um livro de Marx em baixo do braço e se diziam socialistas ou comunistas sem nunca terem lido uma página sequer do O Capital, e os que liam transformavam idéias grande em medíocres por serem pequenos, afinal era bonito ser socialista naquela época.
O mundo se mostrou mais complexo do que o direito de se vender livros e discos, ficou mais complexo entender em que realmente consiste a democracia, a realidade se mostrou mais complexa em relação as desigualdades sociais (afinal é só uma questão social? e o psicológico? e a história? e a política?)
De repente todos exigiam seu lugar ao sol, exigiam seus direitos, negos, brancos, pardos, indígenas, orientais, homossexuais, gays, lésbicas, transexuais, travestis, bi’s, hetros, os evangélicos, da quadrangular, universal, maranata, os candomblés, umbandistas, macumbeiros, cardecistas, católicos, ateus, os emos, punks, sertanejos, rockeiros, as putas e as carolas, os nordestinos, sulistas, e eu. E o direito de ser de direita, porque não? Um aluno me perguntou em sala de aula se uma pessoa não teria direito de ser racista desde que não fizesse mal a ninguém (essa doeu pra responder, afinal o menino tinha uma dose de razão).
Enfim, democracia hoje é um pouco isso, os religiosos se candidatando a cargos políticos em favor da moral e valores cristãos, os neo-nazistas se reunindo e defendendo a supremacia branca, pessoas defendendo a não legalização do aborto enquanto mulheres morrem ou fazem abortos de risco em clinicas fajutas ou com remédios em casa mesmo, ou se possuem dinheiro pagam absurdos. Democracia é um pouco ter direito de colocar silicone, botox, fazer plástica, ser loira ou morena. Mas e o coletivo, onde é que fica mesmo?
Enfim, mas e a juventude? Segundo o artigo de Calligaris, a rebeldia, que por tempos foi associada à juventude, não existe mais (ou talvez nunca tenha existido), o jovem hoje quer saber de trabalho, saúde e família, um emprego em que ele possa ter a próprio casa, sustentar sua família e todo ideal burguês, e um carro com som (aparentemente para poder ficar ouvindo música enquanto o mundo pára por conta do engarrafamento, [nota da autora]). Mas e o coletivo, onde fica mesmo?
Não, não tenho nostalgias, as gerações anteriores também cometeram suas falhas, e as de hoje pensam no próprio umbigo. E eu penso que o maior vitorioso nessa história é o capitalismo. Afinal ser rebelde hoje é andar de all star de 60 reais, camiseta de Che Guevara de 120 reais, óculos estilo Raul Seixas de 400 reais, e um carrinho velho de 16 mil, mas afinal, a liberdade não tem preço, use master card e parcele tudo em cinco vezes.
E eu aqui não posso nem desejar que os Estados Unidos da América se foda porque a gente acaba se ferrando junto. Ainda tenho que engolir que o mundo todo se mobilizando em favor de um país que promove guerras, mata seu próprio presidente e Martin Luter King, subjuga os pais mais fracos economicamente em favor da democracia capitalista para que todos possam ter o direito de comparar all star e comer um hambúrguer do Mac Donald, um merda de país que tem que ser engolido goela abaixo com um presidente terrorista que me provoca náusea.
Mas quer saber, uma parte de mim quer que o mundo entre em colapso mesmo, para que pelo menos possamos repensar toda a estrutura e forma de organização mundial. Vivemos e ainda louvamos instituições falidas como se fossem verdades absolutas ou única forma de conceber e organizar o mundo. Infelizmente a história já mostrou que só nos momentos de crise repensamos e refletimos nossos valores e instituições como família, escola, política. Meu único medo é que os evangélicos dominem o mundo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Abduzida

Já repararam como o consultório odontológico parece com aqueles filmes de ficção científica em que o extraterrestre rapta um terráqueo para abri-lo e examiná-lo. Foi mais ou menos assim que eu me senti naquela maca com aquele olinhos em cima de minha cabeça, aquelas mãos com luvas, máscaras, toucas, jalecos (tudo muito branco), fora aquelas brocas, pinças, sugador de saliva, tudo aquilo dentro da minha boca, que não é tão pequena, mas eu sou capaz de jurar que não cabia. E a moça com aquele suga-saliva, o que tinha de bonita tinha de desajeitada, quase me deixou desidratada, e por pouco não levou a minha língua com o dente, bochecha e tudo junto. Mas tenho que confessar, a vista lá de cima era linda!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

PARA OUVIDOS ATENTOS (Com o perdão do clichê)


Já faz um tempo, mas como muitos ainda não conhecem o som destes paulistanos, decidi que vale a pena tocar no assunto. Em 2004, já com alguma fama no circuito musical alternativo devido a intensidade de seus shows mais do que pela musica em si (isso é normal - e desejável - em se tratando de rock'n roll), a banda Ludovic lançou o disco "Servil", seu perturbado disco de estréia. Hoje eles lançam o disco "Idioma Morto", já reconhecidos pelo Brasil para quem é atento à produção roqueira em terras tupiniquin e sabe que, para além de Charlie brown e Tijuana, temos coisas como Móveis Coloniais de Acajú, Diagonal, a renovada Nação Zumbi, Mallu Magalhães o projeto 3 na Massa e a banda em questão, Ludovic. O novo disco está a disposição no site Trama Virtual (http://www.tramavirtual.com.br/), mas o velho só correndo atrás. Eu corri. Não muito, em tempos de mp3. Mas o fato é que, para quem gosta de um som visceral, louco e por vezes diabólico, e que tenha um pouco de sado-masoquista no que diz respeito a letras ("comparado a mim, ele é um semi-deus", é tudo que diz a letra de "ombro a Ombro"), vai sentir o sangue jorrando dessas letras e sacar porque, em tempos de tantas sub-sub classificações na musica, o simples rótulo de Rock já explica muita coisa. Dançar loucamente, se vestir de uma melancolia eufórica típica de um maníaco-depressivo e vibrar sem ter na verdade o que comemorar, por que o disco é um uivo de derrrota (terceiro clichê: ouvidos atentos, som visceral, e essa agora, uivo de derrota. Repararam?). Como se Ian Curtis, depois de assistir "O idiota" de Herzog e ouvir Iggy Pop, ao invés de se enforcar, tivesse gravado um disco com alguma banda punk enlouquecida. E o resultado é isso. Gritos e sussurros da melhor qualidade. Vou deixar uma amostra de uma letra, e amanhã baixarei o disco novo. Tente. E aproveite.
P.S: Sim, este é o título da Musica.
Teoria e Prática na voz de um Veterano Ofegante
Quanto ao discurso que eu deixei por fazer
É só outra coisa que eu deixei por fazer
Eu assumo a culpa, eu assumo a culpa.
Foi a pior ofensa que eu já ouvi
Mas foi a melhor oferta que eu já recebi.
Eu assumo a culpa, eu assumo a culpa,
Eu assumo a culpa.
Mande lembranças por mim.
Guarde os restos pra mim.

domingo, 10 de agosto de 2008

Não Vale A Pena

Ficou difícilTudo aquilo, nada disso

Sobrou meu velho vício de sonharPular de precipício em precipício

Ossos do ofício

Pagar pra ver o invisível

E depois enxergar

Que é uma pena

Mas você não vale a pena

Não vale uma fisgada dessa dor

Não cabe como rima de um poema

De tão pequeno

Mas vai e vem e envenena

E me condena ao rancor

De repente, cai o nível

E eu me sinto uma imbecil

Repetindo, repetindo, repetindo

Como num disco riscado

O velho texto batido

Dos amantes mal-amados

Dos amores mal-vividos

E o terror de ser deixada

Cutucando, relembrando, reabrindo

A mesma velha ferida

E é pra não ter recaída

Que não me deixo esquecer

Que é uma pena

Mas você não vale a pena

Maria Rita

sábado, 26 de julho de 2008

Dura Lex, Sed Lex, na justiça só rolex

Eu não sou Roberto Dávila, mas também estou dentro do judiciário.

O poder judiciário parece um labirinto do Minotauro, o bestial lutador de Vale Tudo, e não a besta fera da mitologia grega.

O problema do judiciário é que ele tem muitas instâncias. Um juiz tem uma instância no Mato Grosso, um desembargador possui uma enorme instância em Goiás e um juiz federal também tem várias instâncias no Espírito Santo, onde cultiva o trabalho escravo.


Apesar de todos falarem latim, ninguém se entende no judiciário brasileiro.

Um juiz manda prender, aí vem um outro juiz, que tomou laxante, e manda soltar. No final da história, o juiz fica todo tocado. A justiça é cega e não vê o que acontece no judiciário brasileiro, mas sente o cheiro, o que é muito pior.

Mas nem tudo está perdido na justiça. Algumas pessoas insinuam, maldosamente, que a lei é dura, mas é mole comprar um juiz no Brasil. Isso não passa de uma mentira deslavada de um insulto, de uma calúnia, de uma falácia! Não é fácil comprar um juiz no Brasil. Tem que chegar cedo, entrar na fila e disputar a sentença com traficantes, Dantas, Pitta, Naji Nahas e .......

Data venérea, não posso reclamar da justiça brasileira. Sempre que precisei dos homens da lei pude contar com Costa Citty, Gilmar Mende, Marco Aurélio, Leopoldos... Contando junto com vários milhões de dólares. Outro dia mesmo, quando um ladrão de galinhas resolveu levar a Isaura, a minha patriota, na mão grande, a justiça se fez presente.

Depois de receber um presente, a justiça meteu o bandido na cadeia, onde cumpre a pena de prisão perpétua.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Invadindo Domicílios

Você pode me dizer tudo; Não tenha medo.
Eu não sou mau.
Não vou roubar seus filhos, sua casa ou seu dinheiro;
Me diga:
Como você tem gasto seu dinheiro?
Cigarros, mulheres, bebidas?
O governo não gosta disso (ou talvez só finja que não);
Mas não vamos te punir;
Você tem pagado o dízimo
Naquela igreja que você nem sabe se acredita?
É que eu preciso saber sua religião, idade, peso
E se você se acha preto ou branco;
Não se esqueça, você deve me contar tudo.
As contas pagas, não pagas, lícitas ou ilícitas,
Seu imposto de renda, o trabalho que te mata;
Eu vou entrar tão sutilmente na sua vida
E desaparecer tão súbito quanto surgi,
E ainda assim você deve confiar em mim.
Se você não me disser, isso é crime,
Mas eu não preciso te dizer isso, não é mesmo.
Somos do governo federal.
É tudo para seu próprio bem.
Não se preocupe, nós nos preocupamos por você.
Conte-me os seus segredos.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O Drama de Herculine

Herculine Babin, um hermafrodita do século XIX que vive como menina num convento até um dia, aos 20 anos, confessa a padres e, posteriormente, a médicos que seus desejos e práticas eróticas se dirigem às meninas.

A partir desses momentos é obrigado a assumir legalmente o sexo masculino, a vestir-se como homem e a se afastar das meninas com quem vivia, inclusive sua amante. Butler afirma que Herculine sofre com a injunção de ter de pertencer a um dos dois sexos e deposita em seu corpo a causa do sofrimento.

Um corpo anômalo, razão de seus desejos e aflições, que provoca confusões de gênero e estimula prazeres transgressivos. Mas Butler discorda de Herculine. A causa do sofrimento não estaria no corpo, mas sim nas cobranças médicas, religiosas, jurídica e social de um gênero inteligível.

Herculine não poderia ser mulher ou homem “por inteiro” como idealizava seus interlocutores da época. Então, não lhe restava o que ser, pois lhe permitiam existir somente como desviante ou doente. Nas seqüências dos acontecimentos, Herculine se suicida.
Judith Butler.

sábado, 21 de junho de 2008

Ode – Um Corpo de Vinho


“É a noite, são as ondas deste mar e os roucos sussurros de Janis cantando Summertime”, me dizia ela, mas eu precisava lhe dizer que não, querida, é mais que isso que traz para nós esse poder mágico. Somos tão diferentes, entretanto somos cúmplices desta noite consagrada. Somos nós que trazemos para as ondas que quebram na areia fina desta praia este brilho sedutor, são nossas vozes combinadas que fazem essa melodia ser tão agradável, é o que compartilhamos que nos tornaram eternas na madrugada passada, não foi a música nem o frio que fizeram daquele carro o melhor lugar para se estar naquele instante. Não foi o doce prazer do paladar que nos satisfez, mas todas em volta da mesa, na maior das liberdades atingidas, a de nos desfrutar, uma da presença da outra, estávamos vivendo queridas, estávamos exercendo o milagre de existir. É a beleza de cada peculiaridade combinada com a condição que compartilhamos, e não tente, doce menina, medir qual de nós aguçamos mais essa condição, ser mulher nunca vai ser miscível, mesmo porque como disse a outra gota deste vinho, essa condição não possui parâmetro. Nós soubemos viver amores, somos o corpo de um fino vinho, nós nos vivemos nesta noite entorpecedora. Não vivemos o paladar nem a audição nem a visão, vivemos algo muito mais sublime, vivemos nesta noite nossa condição de mulher, compartilhada num êxtase que nunca mais viverão em outro lugar se não naquele tempo e espaço da noite passada.
Texto de Natali Braga





Baixe aqui “O Quereres” com Caetano Veloso: http://www.mediafire.com/?nznsjzenmdw

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A Ética do Assalto

Tudo bem. Este título é totalmente sem lógica e sem sentido. Assalto é assalto, ética é ética. Mas não foi bem assim que Joana achou, pois havia lido a poucos dias uma definição sobre ética que dizia: conjunto de regras que orientam a conduta em uma atividade profissional.

Ao chegar ao ponto de ônibus, ansiosa em saber se o coletivo que contava já havia passado ou não, um rapaz se aproxima e diz:

- Fique quieta e passa o celular. Eu só quero seu celular!

Como muito bem havia aprendido com as recomendações de especialistas em segurança, ela não reagiu. Pegou prontamente o celular na bolsa e entregou ao rapaz e se dirigiu ao sinal para poder atravessar a rua e sair daquela situação desagradável. Entretanto o rapaz se aproximou um pouco mais enquanto ela caminhava e disse:

- Agora passa o dinheiro. Se gritar eu taco este celular na sua cabeça!

Joana não pensou duas vezes e resmungou que não. Como poderia o homem quebrar o acordo feito há segundos atrás, de só levar o celular? Joana não discutiu com o homem nem muito menos se mostrou provocativa. Apenas seguiu andando enquanto ele se aproximava de outras duas mulheres. Atravessou a rua e se dirigiu até sua casa. Escolheu dar as costas ao rapaz, e este resolveu não tacar o celular em canto algum, afinal, o objetivo inicial de sua missão era sair com um celular de lucro sem gritos e conflitos e não com um celular quebrado e uma cabeça ferida. Que bom para Joana que o objetivo do rapaz era este, afinal, o acordo só existia na cabeça dela!

PS: me desculpem a invasão da segunda, mas é pq eu precisava desabafar!!!rsrsrs

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Meu Segredo

Precisei tomar muitas doses de coragem para vir escrever isto. Ainda assim acredito que não tenha sido suficiente, então respirei fundo e escrevo isto de um fôlego só. Há um segredo meu que preciso compartilhar, e irei dizer agora. Contar um segredo não é algo tão simples, então corro o risco de parecer banal ou óbvio. Mas quem conseguir ver, e não apenas olhar, irá compreender. Porque tomei esta decisão? Ainda não sei ao certo. Pulsações traiçoeiras me trouxeram até aqui. Mas o que é este segredo então? Antes, devo dizer o que entendo como segredo: Algo que, mais do que não dito aos outros, dificilmente é reconhecido por si próprio. Não deve ser algo pernicioso ou cruel, aquilo que se teme contar pelas possíveis represálias, um fato que você esconde impelido pelo morcego da consciência; isto seria um pecado e não um segredo. Um segredo, para que seja um mistério, é algo que você não consegue exprimir e só agora entendi isto. É algo tão profundo e tão disforme que não existe senão na parte mais tenra do coração, e que quando você tenta dizer, ou pintar ou escrever, a boca seca, os pincéis falham e a mão paralisa; só sendo inexprimível isto pode ser um segredo, que também é mistério. Dele você não tem vergonha, ou medo, a não ser que seja a vergonha ou medo do desconhecido. Então, vou contar meu segredo, e que a chuva me proteja depois disso, e que vocês me perdoem por tê-lo guardado, e me entendam pois só por isso ele era um segredo. Foi agora que conheci alguém que me contou esse segredo sobre mim, é que existem no mundo feiticeiros que entram em nossos corações e daí nada permanece sem forma por muito tempo. Uma dessas mulheres me contou meu segredo, e agora conto a vocês, pois, agora que ela deu uma forma a isto, posso exprimi-lo, e assim não é mais segredo, mas continua mistério. E por não ser mais segredo, nem para mim, quero dividi-lo, e é assim: “Agora sei: Sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver”.

Café Russo: sem rumo II

Eu avisei que este conto não teria fim! É que a vida continua, embora bandoleiro. E apesar desta roleta russa de amores e desamores meu coração cigano não se ressente. E mesmo que, ao me olhar no espelho eu veja gotículas salinas que deságuam por ninguém, não há sinal de amor por trás dessas lágrimas, não há alma neste corpo, apenas café para dar ânimo.

Resolvi arremessar tudo pro alto, apostar que o ser humano é capaz de voar! Preparei minha mala. Estou decidida, vou abandonar tudo, ficarei apenas com meu caráter. Não, não é uma solução, mas eu não estou em busca de uma. Acendi um cigarro e sentei-me naquela mesma mesa branca onde tudo começou naquela manhã cheia de possibilidades e que acabou por tornar-se eterno retorno. E minha cachorrinha Dudi continuava me espiando e vigiando cada passo meu com aqueles olhos albinos.

Nada de novo, nada mudou de lá pra cá. Ah sim! como poderia me esquecer! troquei o fogão de lugar com a mesa. Hábito terrível que adquiri com minha mãe, sempre mudando os móveis de lugar, os mesmos velhos e encanecidos móveis, mas que me renderam bastante ocupação nas noites de insônia, e bastante insônia ao vizinho.

Decidi largar a terapia de insônia à base de maracujá e camomila (depois de um tempo essas coisas não fazem mais efeito) e fui preparar um café na cafeteira italiana. Só o aroma daquela água fazendo amor com aquele pó marrom se entrecruzando e fundindo bastavam para me embriagar e me remetia a dias passados quando consegui este pó na casa de um velho amigo e em seu próprio quintal torramos e moemos os grãos do mais saboroso arábica. E aquela fumaça tão carregada de nostalgia me fazia fechar os olhos por alguns segundos, e por alguns segundos eu pude acreditar que tudo é possível.

Quando levantei as pálpebras pude ouvir minha cachorra falando “sua idiota”, sacudi o rosto “Calma Catharina, deve ser algum devaneio ocasionado pelas noites sem dormir sem dormir.” Mas as palavras de Dudi ainda ecoavam em meu estômago.

O café estava pronto, coloquei-o na xícara e como sempre derramei um pouco na toalha, decidi assassinar essa maldita consciência em meu estômago com um banho de café quente. O alívio foi imediato. Dei mais um trago no segundo cigarro cuja cinza se estendia por todo seu comprimento, e lembrei de também assassina-la no cinzeiro antes de provocar algum incêndio. Olhei para a janela e naquele estreito pedaço de céu espremido entre o concreto meus olhos procuravam voar e minha perna inquietava-se por debaixo da mesa.

Aquela espera me deixava angustiada. Não tinha certeza se deveria esperar Pedro chegar para avisá-lo que eu estava de partida, ou se simplesmente deveria deixar um bilhete, ou talvez desaparecer sem deixar notícias. E apesar dos extremos de minha vida, desta vez optei pelo meio termo e escrevi um bilhete. “Pedro, vou embora meu bem, o mundo é muito maior que estas paredes que nos cercam. A janta está no forno. Beijos. Catharina.”

Dei meu último trago no cigarro e o apaguei no cinzeiro que eu e Pedro compramos no dia em que resolvemos que moraríamos juntos em sua casa. Ele tinha o péssimo hábito de não fumar e não queria que eu comprasse o cinzeiro, ainda mais naquele preço, talvez porque em algum devaneio em queria acreditar que eu pararia, mas por fim eu o convenci de me dar aquele cinzeiro de presente, ele sempre soube que eu o manipulava, mas fazia pouco caso em me contradizer. Dei meu último trago naquela xícara de café, aquela xícara estúpida que já se encontrava ali antes mesmo de eu chegar, eu não teria o péssimo gosto de comprá-la.

Levantei impulsionada pela cafeína. Minha consciência ainda me olhava com aquele focinho albino. Peguei a mala e ao fechar a porta dei de cara com Pedro. Estou indo embora Pedro, e é para sempre. Mas pra onde você vai? Para fora da possibilidade. Como assim? Reencontrei um antigo namorado, Paulo Roberto, e nós vamos fugir. Para onde? Se eu dissesse não seria uma fuga, mas agora vamos, deixe de novelas mexicanas. Adeus.