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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Você se foi sem nunca ter estado aqui

Minhas sinceras desculpas.

Meus mais entusiasmados parabéns.

Minhas mais inflamadas críticas.

Meu mais doce adeus.

Minhas mais deprimentes confissões de erro.

Meu mais virulento ódio.

Minha mais que complacente culpa.

Meu mais que suspeito arrependimento.

Minha mais dolorosa febre.

Meu mais crítico desespero.

Minha mais imperdoável ausência.

Meu mais enganoso sofrer.

Minhas mais perversas palavras.

Nada mais veio ou permaneceu desde que

Dúvidas colorida com as cores da paixão transformaram-se

Em chagas de certeza pura.

domingo, 25 de abril de 2010

Terra Sonâmbula

"Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos, só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras, A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte."

Pelo que lembro, a ultima vez que senti tal nó nagarganta com o primeiro parágrafo de um livro foi com "'Agua-viva", da Clarice. Vai ser uma grande jornada esse "Terra Sonâmbula", do Mia  Couto.

domingo, 18 de abril de 2010

Dize-me quem escalas e te direi quem és

Achei esse texto no Blog do Torero, que considero um excelente escritor (apesar de só ter lido os textos de seu blog, rs), gostei tanto que quero compartilhar aqui, apesar de na maioria ninguem gostar de textos grandes. O Torero é considerado um cronista esportivo, mas na verdade, vai além disso. A analogia da seleção brasileira d efutebol com uma seleção literária é genial. Vale resaltar que o autor mesmo explicou que, no texto original, Clarice estava no lugar do Pa. Antônio Vieira, e considero a substituição imperdoável.

A seleção de cada torcedor funciona como uma espécie de espelho. Assim, se ele escolhe um meio-campo formado por Dunga, Galeano, Mauro Silva e César Sampaio, fica evidente que se trata de um precavido, talvez até de um covarde. Por outro lado, se propõe um ataque com Rivaldo, Ronaldinho e Romário, estamos na frente de um ousado, de um destemido. Se a linha é Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, falamos com um saudosista, e se a defesa conta com Carlos Alberto, Figueroa, Domingos da Guia e Nílton Santos, estamos ao lado de um amante dos clássicos.

Convencido de que escalar uma seleção seria a forma ideal de me apresentar ao leitor, pus o cérebro para trabalhar e escolhi meus onze jogadores preferidos:

Goleiro: Drummond. Um grande time começa por um grande goleiro. Drummond nasceu em Itabira, mas atuou longo tempo no Rio de Janeiro. Ele traz segurança e tranqüilidade para o resto da equipe. É elástico e seguro, dono de um estilo que marcou época e fez seguidores.

Lateral direito: Bandeira. O pernambucano merece a posição apesar dos problemas respiratórios. Lateral direito de inegável leveza, caracteriza-se por criar jogadas aparentemente simples, mas que só parecem tão simples porque ele faz um complexo trabalho para descomplicá-las.

Zagueiro central: Érico. Central tem que ser gaúcho. Érico, além de ter nascido em Cruz Alta, é um beque polivalente: joga com qualquer tempo e vento. Pode atuar com aspereza e rudeza, ou sair jogando com maleabilidade e graça. Assim como outro central, Domingos da Guia, também possui um filho de inegável talento.

Quarto zagueiro: Nelson Rodrigues. Essa é uma posição onde é proibido ter falsos pudores; tem que se chutar a bola para a arquibancada e, se preciso for, deixar o inimigo estatelado no chão com fratura exposta. É o caso de Rodrigues, um jogador de moral polêmica. Alguns críticos mais ácidos dizem que ele cai muito pela direita, mas trata-se de um defeito menor que suas qualidades.

Lateral-esquerdo: Vieira. Começou a carreira timidamente, mas um dia teve um estalo e passou a jogar como que inspirado pela luz divina. Seu estilo é lógico, mas também grandiloqüente. Às vezes traça caminhos tortuosos, mas sempre chega ao seu objetivo. De todos os convocados é o único Atleta de Cristo.

Médio volante: Gregório. Um bom cabeça-de-área tem que saber xingar a mãe do adversário de doze formas diferentes. Gregório conhece 118. Não é à toa que o apelidaram de Boca do Inferno. Perguntado sobre as violentas faltas que comete, diz que são para a glória de Deus, pois, “quanto maior o meu pecar, maior a graça d’Ele em perdoar”. Não raro, elabora firulas e gongorismos que surpreendem a torcida.

Meia-direita: Mário. Um ponta-de-lança tem que ser ao mesmo tempo clássico e inovador. Mário consegue as duas coisas: sabe estudar o jogo e inventar lances com a mesma competência. Pode-se dizer que é um clássico de vanguarda.

Meia-esquerda: Machado. A nobre camisa dez não poderia ser vestida por outro. Excelente nos lançamentos em profundidade, é um especialista nos dribles sutis e no toque refinado. Estranhamente, está sempre com um riso nos lábios. Não se sabe, contudo, se ri dos inimigos, de si mesmo ou do público.

Ponta-direita: Guimarães. É um inventor. Guimarães cria dribles e ziguezagueia pelos campos gerais como ninguém. Seus lances são inesperados, como se ele sempre tivesse que criar um caminho pró¬prio. Aprendeu tudo que sabe na várzea, mas seu jogo é universal.

Centroavante: Amado. O jogador baiano é adorado pela torcida, mas um tanto desprezado pela crítica esportiva. Porém, é inegável que sabe prender como poucos a atenção dos zagueiros e do público. O excesso de acarajé compromete um pouco a sua forma. Começou a jogar na praia, onde ficou conhecido como o capitão da areia.

Ponta-esquerda: Graciliano. Vindo de Quebrângulo, Alagoas, este extrema-esquerda é dono de um estilo duro, sisudo e seco. O torcedor sempre pode esperar dele um jogo consistente e seguro. Odeia concentrações e pretende escrever um livro de memórias condenando essa prática.

Obs.: Obviamente esta seleção de imortais conta apenas com jogadores defuntos, o que deixou de fora vá¬rios nomes. Em meu banco de reservas estão Verissimo, Ubaldo, Millôr e Fonseca. São grandes atletas, mas desconfio que não têm muita pressa em entrar nesse time.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O Anticristo

Eu sou Mephistópheles. Mephistópheles, é o diabo. E todos vocês são Faustos. Faustos, os que vendem a alma ao diabo.

Tudo é vaidade neste mundo vão, tudo é tristeza, é pop, é nada. Quem acredita em sonhos é porque já tem a alma morta. O mal da vida cabe entre nossos braços e abraços.

Mas eu não sou o que vocês pensam. Eu não sou exatamente o que as Igrejas pensam. As Igrejas abominam-me. Deus me criou para que eu o imitasse de noite. Ele é o Sol, eu sou a Lua.

A minha luz paira sobre tudo que é fútil: margens de rios, pântanos, sombras.

Quantas vezes vocês viram passar uma figura velada, rápida, figura que lhe darei toda felicidade. Figura que te beijaria indefinidamente. Era eu. Sou eu.

Eu sou aquele que sempre procuraste e nunca poderá achar. Os problemas que atormentam os Deuses. Quantas vezes Deus me disse citando João Cabral de Melo Neto: Ai de mim, ai de mim. Quem sou eu?

Quantas vezes Deus me disse: Meu irmão, eu não sei quem eu sou.

Senhores, venham até mim, venham até mim, venham. Eu os deixarei em rodopios fascinantes, vivos nos castelos e nas trevas, e nas trevas vocês verão todo o esplendor.

De que adianta vocês viverem em casa como vocês vivem? De que adianta pagar as contas no fim do mês religiosamente, as contas de luz, gás, telefone, condomínio?

Todos vocês são Faustos. Venham, eu os arrastarei por uma vida bem selvagem através de uma rasa e vã mediocridade, que é o que vocês merecem.

As suas bem humanas insaciabilidade, terão lábios, manjares, bebidas.


É difícil encontrar quem não queira vender sua alma ao diabo.

As últimas palavras de Goethe ao morrer foram: Luz, luz, mais luz!!



Jorge Luís Borges (O título fui eu quem dei).

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Talvez soe apenas como mais um raquítico lamento pela triste situação nessa cidade, e talvez seja realmente apenas isso, mas é impossivel viver aqui sem passar um dia que seja sem pensar nesse horror urbano. Uma cidade simplesmente não pode planejar toda sua infra-estrutura pensando em receber turistas (o que ainda faz muito mal, a não ser que você possa pagar muito) e reservar à maior parte da sua população a crueza da lei. E uma lei historicamente imposta via crueldade, autoritarismo e indiferença. Avanços foram feitos, soluções têm sido tentadas, mas a lógica tacanha de que "problema social é caso de policia" ainda é válida em grande parte do Rio de Janeiro. A violência policial e a impunidade dos oficiais que deveriam ser responsabilizados pela negligência diante da mesma continua; O secretário de segurança ainda acha o Rio de Janeiro uma cidade maravilhosa e pacífica, porque os indíces de criminalidade nas zonas nobres são comparáveis às de países nórdicos e as favelas (onde se concentra a população pobre do Rio) seriam "bolsões de violência" que não deveriam entrar nos registros. A mesma lógica de Billy The Kid, que, quando perguntado sobre quantos assassinatos cometeu, contabilizava vinte e uma mortes, "sem contar mexicanos". Esses não contam. Favelados não contam. Vagabundos não contam. recentemente, o prefeito Eduardo Paes (que parte da esquerda preferia ao Gabeira) anunciou que estuda um jeito de acabar com o salvador "sopão" servido à população indigente. Por que? Motivos de ordem. Porque um morador da zona sul deve ter reclamado que a fila do sopão ficava no caminho de seu Honda Civic. Nada disso faz sentido. Jogos Olímpicos aqui nao fazem sentido. A Rua da Glória não faz sentido. Beltrame não faz sentido.
O que temos no Rio não é uma guerra. É uma miopia coletiva.

domingo, 29 de novembro de 2009

One More Cup of Coffee (Bob Dylan)

Sua respiração é doce
seus olhos são como duas jóias no céu
sua postura é ereta, seu cabelo é macio
no travesseiro onde você repousa,
mas eu não sinto afeição
nem gratidão ou amor.
Sua lealdade não é para mim,
mas para as estrelas do céu


Seu pai é um foragido
e um traficante
Ele te ensinou como selecionar e escolher
E utilizar uma faca
Ele supervisiona seu reino
E assim nenhum estranho se intromete
Sua voz treme enquanto ele chama
Por mais um prato de comida

Mais um copo de café para a estrada
Mais um copo de café para eu ir
Descendo o vale...

Sua irmã vê o futuro
Assim como você e sua mãe
Você nunca aprendeu a ler ou escrever
Não há livros na sua estante
E seu prazer não conhece limites
E sua voz soa como a de uma cotovia
Mas seu coração é como um oceano
Misterioso e escuro

Mais um copo de café para a estrada
Mais um copo de café para eu ir
Descendo o vale...














































































segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A propósito do vinho

Baudelaire foi, o quanto pôde, um entusiasta do vinho como o mais instigador dos venenos humanos. Impossível para meu ser não concordar. O sabor único da bebida, a sensação vitoriosa enquanto ele desliza pela garganta agora aquecida, a espera pelo torpor, ela mesmo inebriante... Todos esses elementos transformam o vinho em uma bebida sem par na história. Para nosso poeta, o vinho acompanhou os momentos mais sublimes que puderam ser noticiados. Os tons do vinho colorem o quer que seja tocado por ele. Acredito que o vinho possa ser tratado como uma preferência pessoal, mas o álcool em geral tem esse poder, essa virtude de desvirtuar-nos no momento e na maneira certa, entortando caminhos retos e colocando malícia onde só há convenções. De modo a justificar por exemplos sua paixão pelo vinho, nosso poeta narra um pequeno caso que lhe aconteceu. Numa exposição de arte, defrontou-se com uma pintura horrível, estéril em sua moldura, cercado de imbecis que se compraziam em exaltar a monotonia daquela criação, tão tediosa em sua virtuosidade insípida. Aproximou-se, e procurou saber um pouco mais sobre “o caráter moral do homem que produzira tão criminosa extravagância” (excelente descrição, não acham?). Baudelaire já imaginou que a pessoa seguramente deveria ser “fundamentalmente mau”. Acertou. Dentre os hábitos do infame pintor, ele descobriu que “o monstro se levantava regularmente antes do nascer do dia, que arruinara a sua governanta, e que só bebia leite!”.

Sobriedade faz mal à vida, e a tudo que a faz valer a pena.

(Baudelaire. "Os Paraísos Artificiais".)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Dos Tres Mal-amados



O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Joao Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Juro que me lembro daquelas noites

Quando eu me perco dentro de você pra mim é o paraíso
A vida só tem sentido quando você se perde.
Quando estou dentro de você
É ausência de sentidos,
Ainda que a maconha,
A vodka
E o tesão
Tenham aguçado meus sentidos.
Eu estou perdido.
Você está perdida, garotinha.
Eu estou suado e fodido neste labirinto sensual.
A sensualidade só pode ser um crime compartilhado.
O maior barato de estar aqui
É que ninguém sabe que você está perdido.
Andando pelas ruas, eu sinto
As delícias de um gozo primitivo
E assim recupero minha essência.
Olha estes prédios:
Eles nos encaram com a imponência
De um puro macho dominador,
Ou de uma dominatrix cheia de surpresas.
Tudo isso é devassidão,
Carícias de amores anormais,
Como aqueles que tivemos em Vitória.
E eu só bebo porque posso brindar a estas noites sujas;
Eu tenho tanta vontade de me perder
Que por vezes esta vontade me paralisa.
Mas eu me entendo.
A espera sempre vale como um sabor a mais.
Me espere.
Quando eu chegar,
Te deixarei de quatro
Pedindo por um pouco mais de força.
E você nem saberá onde foi que
Aprendi a dizer tantas palavras sujas.
Quando me perco dentro de você, pra mim é o paraíso.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

PARA OUVIDOS ATENTOS (Com o perdão do clichê)


Já faz um tempo, mas como muitos ainda não conhecem o som destes paulistanos, decidi que vale a pena tocar no assunto. Em 2004, já com alguma fama no circuito musical alternativo devido a intensidade de seus shows mais do que pela musica em si (isso é normal - e desejável - em se tratando de rock'n roll), a banda Ludovic lançou o disco "Servil", seu perturbado disco de estréia. Hoje eles lançam o disco "Idioma Morto", já reconhecidos pelo Brasil para quem é atento à produção roqueira em terras tupiniquin e sabe que, para além de Charlie brown e Tijuana, temos coisas como Móveis Coloniais de Acajú, Diagonal, a renovada Nação Zumbi, Mallu Magalhães o projeto 3 na Massa e a banda em questão, Ludovic. O novo disco está a disposição no site Trama Virtual (http://www.tramavirtual.com.br/), mas o velho só correndo atrás. Eu corri. Não muito, em tempos de mp3. Mas o fato é que, para quem gosta de um som visceral, louco e por vezes diabólico, e que tenha um pouco de sado-masoquista no que diz respeito a letras ("comparado a mim, ele é um semi-deus", é tudo que diz a letra de "ombro a Ombro"), vai sentir o sangue jorrando dessas letras e sacar porque, em tempos de tantas sub-sub classificações na musica, o simples rótulo de Rock já explica muita coisa. Dançar loucamente, se vestir de uma melancolia eufórica típica de um maníaco-depressivo e vibrar sem ter na verdade o que comemorar, por que o disco é um uivo de derrrota (terceiro clichê: ouvidos atentos, som visceral, e essa agora, uivo de derrota. Repararam?). Como se Ian Curtis, depois de assistir "O idiota" de Herzog e ouvir Iggy Pop, ao invés de se enforcar, tivesse gravado um disco com alguma banda punk enlouquecida. E o resultado é isso. Gritos e sussurros da melhor qualidade. Vou deixar uma amostra de uma letra, e amanhã baixarei o disco novo. Tente. E aproveite.
P.S: Sim, este é o título da Musica.
Teoria e Prática na voz de um Veterano Ofegante
Quanto ao discurso que eu deixei por fazer
É só outra coisa que eu deixei por fazer
Eu assumo a culpa, eu assumo a culpa.
Foi a pior ofensa que eu já ouvi
Mas foi a melhor oferta que eu já recebi.
Eu assumo a culpa, eu assumo a culpa,
Eu assumo a culpa.
Mande lembranças por mim.
Guarde os restos pra mim.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Invadindo Domicílios

Você pode me dizer tudo; Não tenha medo.
Eu não sou mau.
Não vou roubar seus filhos, sua casa ou seu dinheiro;
Me diga:
Como você tem gasto seu dinheiro?
Cigarros, mulheres, bebidas?
O governo não gosta disso (ou talvez só finja que não);
Mas não vamos te punir;
Você tem pagado o dízimo
Naquela igreja que você nem sabe se acredita?
É que eu preciso saber sua religião, idade, peso
E se você se acha preto ou branco;
Não se esqueça, você deve me contar tudo.
As contas pagas, não pagas, lícitas ou ilícitas,
Seu imposto de renda, o trabalho que te mata;
Eu vou entrar tão sutilmente na sua vida
E desaparecer tão súbito quanto surgi,
E ainda assim você deve confiar em mim.
Se você não me disser, isso é crime,
Mas eu não preciso te dizer isso, não é mesmo.
Somos do governo federal.
É tudo para seu próprio bem.
Não se preocupe, nós nos preocupamos por você.
Conte-me os seus segredos.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Meu Segredo

Precisei tomar muitas doses de coragem para vir escrever isto. Ainda assim acredito que não tenha sido suficiente, então respirei fundo e escrevo isto de um fôlego só. Há um segredo meu que preciso compartilhar, e irei dizer agora. Contar um segredo não é algo tão simples, então corro o risco de parecer banal ou óbvio. Mas quem conseguir ver, e não apenas olhar, irá compreender. Porque tomei esta decisão? Ainda não sei ao certo. Pulsações traiçoeiras me trouxeram até aqui. Mas o que é este segredo então? Antes, devo dizer o que entendo como segredo: Algo que, mais do que não dito aos outros, dificilmente é reconhecido por si próprio. Não deve ser algo pernicioso ou cruel, aquilo que se teme contar pelas possíveis represálias, um fato que você esconde impelido pelo morcego da consciência; isto seria um pecado e não um segredo. Um segredo, para que seja um mistério, é algo que você não consegue exprimir e só agora entendi isto. É algo tão profundo e tão disforme que não existe senão na parte mais tenra do coração, e que quando você tenta dizer, ou pintar ou escrever, a boca seca, os pincéis falham e a mão paralisa; só sendo inexprimível isto pode ser um segredo, que também é mistério. Dele você não tem vergonha, ou medo, a não ser que seja a vergonha ou medo do desconhecido. Então, vou contar meu segredo, e que a chuva me proteja depois disso, e que vocês me perdoem por tê-lo guardado, e me entendam pois só por isso ele era um segredo. Foi agora que conheci alguém que me contou esse segredo sobre mim, é que existem no mundo feiticeiros que entram em nossos corações e daí nada permanece sem forma por muito tempo. Uma dessas mulheres me contou meu segredo, e agora conto a vocês, pois, agora que ela deu uma forma a isto, posso exprimi-lo, e assim não é mais segredo, mas continua mistério. E por não ser mais segredo, nem para mim, quero dividi-lo, e é assim: “Agora sei: Sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver”.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O Cabaré de Lorena

Lorena viu o olhar de Cássia embaixo dos óculos escuros
Procurando enxergar dentro de seu decote:
Fez que não viu;
Lorena ouviu Cássia soltar um suspiro de prazer
Quando disse para ela que gostava de ser dominada:
Fez que não ouviu;
Lorena sentiu o pé de Cássia por baixo da mesa levemente
Subir pela sua perna lhe dando arrepios:
Fez que não sentiu;
Lorena pensou em como seria o corpo nu de Cássia
Jogado sobre o seu enquanto elas se beijavam:
Fez que não pensou;
Acendeu o cigarro
E jogou a cabeça para trás:
Alegria e jovialidade sensuais,
Sensualidade e curiosidade safadas que se misturavam.

E junto daquela figura na mesa
Sentia como se passasse a noite num cabaré surrealista
Se tal coisa existisse.
Será que existe?
Será que lá mulheres beijam mulheres
Enquanto garçons nus as servem,
E será que da boca delas sai fumaça em formatos obscenos?
Os pratos possuem desenhos do Kama Sutra
E os guardanapos, frases do marquês de Sade?
E a musica...
Pornografia cantada por vedetes bêbadas.
E ali, na frente dela,
A rainha obscena,
A mulher da língua áspera como uma gata
Louca para leva-la ao submundo dos prazeres proibidos
Ou uma dama mal-vestida
Que quer seduzi-la para introduzi-la em seus jogos
Com seus parceiros?

Cássia não desiste da fumante compulsiva
Fala e fala da beleza dionisíaca das orgias
E Lorena se cala.
Ri e encara a morena jambo de pernas grossas
Convida com os olhos para um encontro secreto
E Lorena desvia o olhar.
Joga os braços até ela e toca seus cabelos,
Gesticula, dedos pornográficos para ela,
E Lorena não solta o cigarro.
Beija outra mulher e agarra-lhe o seio na frente dela
Para provocar e enciumar;
E Lorena apenas sonha.

A ultima taça de vinho,
Cássia oferece a Lorena.
Os últimos pensamentos de Lorena
Foram para Cássia e seu corpo de ninfa.
O ultimo beijo da noite
Acontece no apartamento de Cássia
Onde Lorena derrama vinho em seu peito
Convidando Cássia a toma-lo e saciar ambas;
Cássia deita-se entre as pernas de Lorena
E beija-lhe no seu mais íntimo;
Enquanto Lorena fecha os olhos
Lembrando do Cabaré em que conheceu sua nova paixão.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Maneira Profana de Amar

Esta acaba sendo minha estréia aqui, melhor então começar por aquilo que gosto mais: poesia. Nada mais justo do que homenagear quem me trouxe até aqui, quem me aproximou destas pessoas e que eu espero que me arraste até onde ela vá.

Você sorri como um anjo
E me incendeia feito o inferno.
E no cerne desta contradição, suas palavras
E beijos;
Trazendo à superfície de meu corpo
Sensações tão contrastantes entre si.
Quando caí nos teus braços,
Pus meu coração na linha de fogo
E tu passaste a escrever em meu peito
Mais um pequeno capítulo desta velha
Comédia humana,
Tragédia de desenganos e incomunicabilidade,
Romance de corpos e provas de amor;
Ah, coração sugestionável!
Não quero mais nada,
Nem certeza nem vontade,
Nem mais um ano de vida nem recordações:Só teus lábios ardentes me trazem o sabor da verdade.