Mostrando postagens com marcador Café Tessella. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Café Tessella. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de julho de 2009

essa coisa de crise existencial não acontece com engenheiros

quando entramos na Era de Aquário, o anjo torto de Drummond pediu ajuda pro anjo safado do Chico e temperaram o mundo com os sete pecados capitais e mais tantos outros vícios, ai o mundo ficou todo errado. essa tal de pós-mudernidade transformou tudo numa sociedade liquidamente global baumaniana onde a normalidade é extremamente pirada e vice-versa. o negócio é tão complexo que não dá mais pra definir quem é bandido e quem é mocinho, é tudo uma questão sociológica, mas a lógica da sociedade mesmo ninguém sabe como é que é. mas eu sei, engenheiro não tem crise existencial. e eu, às vezes não sei se escolhi as ciências humans por uma inclinação à priori, ou se sou assim porque fiz ciências humanas.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Tomo café logo existo

Receita do dia pra ficar ligadão: essa aqui é pro pessoal que precisa ficar acordado sem ficar doidão

uma chícara com café até a metade
acrescente uma colher de chá de pó de guaraná
e uma pitada de canela

eu prefiro sem açucar, mas sei que é treche

adoce a sua prefêrencia... mas pra ficar com um sabor bem bom, use açucar mascavo


aprecie com moderação!!!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Leminski Leminski Leminski

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra



Donna mi priega 88

se amor é troca
ou entrega louca
discutem os sábios
entre os pequenos
e os grandes lábios

no primeiro caso
onde começa o acaso
e onde acaba o propósito
se tudo o que fazemos
é menos que amor
mas ainda não é ódio?

a tese segunda
evapora em pergunta
que entrega é tão louca
que toda espera é pouca?
qual dos cinco mil sentidos
está livre de mal-entendidos?



Erra uma vez

nunca cometo o mesmo erro
duas vezes

já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez


Aço e Flor

Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Quase diário fantasiado pelo alterego ou Diálogo tentando conciliar id e superego

É tudo que eu preciso, um papel, uma caneta e um cigarro. Daí me lembro do aeroporto de São Paulo, e toda aquela nostalgia barata de ter viajado. Aquele sol aquecendo o corpo, nada além do corpo, e eu empenhada em fumar um cigarro, um desejo de um abraço e nada a minha frente (ou tanto concreto que chegava ao nada). Talvez um pouco mais pragmática. A objetividade é extremamente necessária aos loucos que se perdem tão fácil na dura realidade. Restaram lembranças, nada além de lembranças e meu corpo, com aquele cigarro barato que além de nostalgia me provocava náusea. De me empenhar a fumar, foi o que restou das lembranças de saber que sou latina. Latida, latente. Agora vou aprender a cantar. Quem canta não pode ser infeliz. Serei uma a(u)(r)tista completa, me aventurei nas artes práticas, escrita, e agora canto. Só na arte do amor é que me fodo. Mas também não dá pra ter tudo na vida, sou uma boa jogadora de buraco, e sabe como dizem: “sorte no jogo, azar no amor”. Lá se vai mais um com o coração partido. Não, espere! Aquele ali é um espelho. Pra cada dedo indicador apontado, outros três apontam pra você mesmo. É mais fácil amar uma ilusão do que a dura realidade. Sou a desengonçada tentando eternamente ajeitar a vida, não por opção, mas por não saber lidar com o cotidiano dos bancos mercenários, do concerto das máquinas, da burocracia de ser empregada, das monografias desafinadas, e por ter perdido metade da minha memória no meio do caminho (desmesmoriada por genética). Não sou lésbica, não sou puta, não sou drogada, mas por me simpatizar com eles e talvez respeitar tudo isso, acabo me tornando um deles. Deslocada do mundo que exige um pragmatismo que não consigo alcançar por ser desengonçada. Voltando ao aeroporto de São Paulo, tudo se resume ali, naquele sol e eu sozinha esperando algo que não sabia bem o que e como viria. Veio. Veio a vida é claro, inevitável. Estava voltando pra casa de um mês de viajem pela américa latina e tudo voltaria a ser como antes. Ter a liberdade tão desejada por todos não é fácil, carregar a cruz dos outros nunca é fácil, extravasar a loucura dos outros nunca é fácil (mas o mundo precisa de Jesus Cristo). Queria ser normal, já se foi, alguma coisa perverteu meu caminho, acho que ainda na barriga de minha mãe. Não quero ser hedonista, quero respeitar meus limites. Mas no aeroporto de São Paulo eu podia sentir que tudo era possível. E sempre restam lembranças. Não sei acabar este texto, porque a vida continua, e por ser demasiado pessoal, eu continuo a vida, meus amores insensatos, minha constante busca por pragmatismo, minha monografia interminada e eu aqui na fila do banco esperando horas pra ser atendida pra poder pagar minhas dividas. Minha senha chegou, levanto atordoada, catando caneta e papel e procurando meus óculos pra saber qual mesa deveria me dirigir. A moça atrás do balcão me sorri simpática e eu descomposta, meu caso não é tão grave assim. Mas eu agoniada: “fecha tudo moça, encerre todas as minhas contas” – ela ri. Eu definitivamente não sei mexer com isso. Por vezes perco minha caneta em meu cabelo e saio a procurar – “onde está a caneta que estava agora pouco aqui meu deus, me ajuda a procurar” – pra meia hora mais tarde encontrá-la prendendo meus cachos que agora não são mais tão cacheados assim. Tudo bem eu assumo minha culpa, mas tenho pavor de quem não assume a própria culpa, nada mais covarde. E agora eu tenho que carregar minha casa em minha bolsa por ter que passar o dia inteiro resolvendo pepino (quem inventou essa gíria?), mas tudo bem, eu sobrevivo à pão na chapa. Só preciso de um papel, uma caneta (e agora um cigarro) pra reinventar meu mundo.

domingo, 8 de março de 2009

Momentos bizarros e tristes do mundo de Camila

A alguns anos parei de fumar maconha porque acreditava que o mundo tava ficando doido, e numa crise de alienista comecei a pensar que o doido deste mundo era eu, afinal coisas que para mim eram ridiculamente absurdas pareciam normais aos olhos da sociedade.
Pois bem, minha crise passou e volto a achar que doido é este mundo mesmo. Ainda mais quando leio no jornal que um padre excomungou uma menina de nove anos por ter feito aborto de gêmeos após ser estuprada por seu padrasto. E não satisfeito só com a negação de uma menina de 9 anos, excomungou o médico que realizou o aborto e a mãe da menina. O mais ridículo foi não ter excomungado o estuprador. Agora só falta a igreja querer legalizar o estupro.
Para mim não há tamanho para a hipocrisia da igreja que de uma maneira um pouco sutil acaba defendendo seus padres pedófilos e condenando meninas inocentes. O argumento que ele se utiliza é que os bebes não tinha culpa. Mas e a menina teria que pagar o preço pelo resto de sua vida.
Respeito quem não é favorável ao aborto. Mas para mim parece tão claro dar o direito a mulher decidir sobre seu próprio corpo, até porque não acredito que liberar o aborto vá fazer com que suas taxas aumentem, mas sim dar estrutura as mulheres que o querem fazer, e o fazem independente da legalização. E quem não é católico e não acredita nesse negócio de vida desde o embrião, não tem o direito de fazer sua escolha antes que uma igreja hipócrita descida por ela?
Sim, não tenho medo em admitir que sou totalmente favorável ao aborto, por mais polêmica que essa opinião possa parecer. Para mim, pior são as mulheres que realizam aborto com remédio e em clinicas clandestina que cobram absurdos e sem a menor infra-estrutura. E mesmo que não fosse a favor, acredito que cada indivíduo tem a capacidade de decidir o que é melhor para sua vida, mesmo que eu não concorde.
Achei a postagem coveniente para hoje, já que dia das mulheres. E gostaria de lembrar de um grupo de mulheres católicas favorável ao aborto, composto inclusive por freiras e que se intitulam:
MULHERES PELO DIREITO DE DECIDIR.
pra quem quiser saber mais é só procurar no google.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Momentos bizarros e engraçados do fantástico mundo de Camila (rs.)

Ontem vi uma reportagem do ESTV primeira edição sobre consumismo. Em uma parte da reportagem entrevistaram um rapaz, acredito que tenha entre 25 e 30 anos, ganhava cerca de mil reais por mês, negro ou mulato se preferir (tenho um pouco de aversão a este nome, até medo de pronunciar, coisa de cientista social, sabe? Mas ainda não achei outra palavra pra designar nós mestiço, e como pra mim pior que mulato é dizer moreno ou moreninho... comecei a achar que cor de mula nem é tão ruim assim, passei a ver como uma forma cultural de dizer, afinal porque ter cor de mula é tão ruim? eu sei que tem um monte de simbolismo negativo mas tomei a decisão na minha vida de ver as coisas pelo lado positivo, a mulinha é tão bonitinha, trabalhadora, agüente firme o tranco, isso não pode ser tão ruim assim,.... enfim... não é isso que eu quero dizer). Fizeram um teste com o rapaz para saber se ele era consumista e o resultado, me pareceu óbvio até, foi que SIM, ele tinha o perfil de uma pessoa consumista e mão aberta (eles realmente usaram este termo, que aliás eu adoro... melhor que mão-de-vaca) Olhando pra cara do moço com meu olhar biônico que disseca tudo, mesmo que no mundo da fantasia, o moço tinha mesmo cara de quem gostava de bancar uma cervejada num churrasquino com os amigos (quer coisa melhor na vida?... me desculpem os vegetarianos deste blog, rs). Mas o mais legal foi a resposta do cara... me surpreendeu. Enquanto todo mundo ficaria preocupado com isto, repensando a economia doméstica, ele disse algo do tipo.... “que bom né, isso é bom! O Brasil ta precisando que a gente consuma mesmo, pra sair da crise, com essa crise o melhor é consumir pra ajudar o país, eu to fazendo minha parte...”
Eu amo o patriotismo deste povo, rsrsrsrs.
E não foi isso que o Lula disse!?!?!
Até o cara que fazia a reportagem ficou surpreso com a resposta, um pouco sem saber o que dizer.... Afinal a reportagem era pra dizer que devemos controlar o nosso consumismo e poupar um pouco.
Pois bem, bem vindos a sociedade do consumo!
Eu também faço minha parte... o pouco que me cai as mãos gasto tudo com cerveja, rs. Talvez por isso tenha me simpatizado tanto com o moço... se ele gostar de uma cervejinha como eu imaginei no fantástico mundo de Camila.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O mundo das crises: uma análise miscelânea Camilana

Recentemente li uma pesquisa no DATA-FOLHA traçando o perfil da juventude hoje. Um artigo em especial, de um psicanalista chamado Contardo Calligaris, me chamou a atenção: A adolescência acabou? Sem nostalgias baratas, conservadoras e burras, não é esta intenção deste texto.
Nasci em 1984, e penso que se eu pudesse traçar uma marco na história do Brasil escolheria este ano. 1984 foi o ano-marco para a redemocratização do país, ano que marca a transição da ditadura para a democracia, ano de luta (?), ano em que ocorreu as Diretas Já, ano do livro de George Orwell (rs), muito atual naquela época e hoje (quem não leu vale a pena, é um clássico).
Ano de luta? Pois bem. Nasci em meio a esse furduncio e todo rearranjo da organização do sistema político, social, econômico, cultural, etc. e tal do país. Uma nostalgia de luta e um sistema voltado para o conhecimento matemático me acompanharam durante toda minha estadia no sistema educacional. De um lado alguns professores de história relembrando as lutas e conquistas dos movimentos que pediam a democratização do país e dizendo que os jovens, no caso nós, éramos o futuro do Brasil (quanta responsabilidade, hein?). E de outro lado, cinco aulas de matemática por semana, além de física e química e apenas três de história e três de geografia que se dividia em geo-física e geo-política. Enfim, de acordo com essa estruturação do sistema educacional, pra mim, me parece claro que a educação básica não estava voltada para o aluno pensar e refletir sobre sua realidade.
Mas essa angústia em meu peito, de uma história de luta e conquistas dos movimentos sociais me fascinavam, talvez por isso tenha escolhido fazer o curso de ciências sociais. Lembro-me bem de um professor de química, que vez o outra encontro nos corredores da UFES, fazer um questionamento em sala de aula sobre porquê o mapa do mundo se posicionava daquela maneira se de acordo com o espaço não há referencial que indique que o norte é para cima e o sul para baixo. Aquilo ficou encafifado na minha cabeça por um bom tempo, tanto que comento aqui.
Mas como em tudo na vida existem porém’s. Tudo bem, ficamos sabendo que Betinho Souza, Henfil, Darcy Ribeiro, Zuzu Angel e os tropicalistas Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, lutaram pelo direito da democracia e o direito de vender seus livros e discos e enterrar seus filhos. Mas a minha mãe e o meu pai não sabem de nada disso, assim como a mãe e pai de muitos amigos, e a minha avó nem sabe o que é ditadura.
Outro porém, acreditava-se que a democracia resolveria os problemas do Brasil, andava-se com um livro de Marx em baixo do braço e se diziam socialistas ou comunistas sem nunca terem lido uma página sequer do O Capital, e os que liam transformavam idéias grande em medíocres por serem pequenos, afinal era bonito ser socialista naquela época.
O mundo se mostrou mais complexo do que o direito de se vender livros e discos, ficou mais complexo entender em que realmente consiste a democracia, a realidade se mostrou mais complexa em relação as desigualdades sociais (afinal é só uma questão social? e o psicológico? e a história? e a política?)
De repente todos exigiam seu lugar ao sol, exigiam seus direitos, negos, brancos, pardos, indígenas, orientais, homossexuais, gays, lésbicas, transexuais, travestis, bi’s, hetros, os evangélicos, da quadrangular, universal, maranata, os candomblés, umbandistas, macumbeiros, cardecistas, católicos, ateus, os emos, punks, sertanejos, rockeiros, as putas e as carolas, os nordestinos, sulistas, e eu. E o direito de ser de direita, porque não? Um aluno me perguntou em sala de aula se uma pessoa não teria direito de ser racista desde que não fizesse mal a ninguém (essa doeu pra responder, afinal o menino tinha uma dose de razão).
Enfim, democracia hoje é um pouco isso, os religiosos se candidatando a cargos políticos em favor da moral e valores cristãos, os neo-nazistas se reunindo e defendendo a supremacia branca, pessoas defendendo a não legalização do aborto enquanto mulheres morrem ou fazem abortos de risco em clinicas fajutas ou com remédios em casa mesmo, ou se possuem dinheiro pagam absurdos. Democracia é um pouco ter direito de colocar silicone, botox, fazer plástica, ser loira ou morena. Mas e o coletivo, onde é que fica mesmo?
Enfim, mas e a juventude? Segundo o artigo de Calligaris, a rebeldia, que por tempos foi associada à juventude, não existe mais (ou talvez nunca tenha existido), o jovem hoje quer saber de trabalho, saúde e família, um emprego em que ele possa ter a próprio casa, sustentar sua família e todo ideal burguês, e um carro com som (aparentemente para poder ficar ouvindo música enquanto o mundo pára por conta do engarrafamento, [nota da autora]). Mas e o coletivo, onde fica mesmo?
Não, não tenho nostalgias, as gerações anteriores também cometeram suas falhas, e as de hoje pensam no próprio umbigo. E eu penso que o maior vitorioso nessa história é o capitalismo. Afinal ser rebelde hoje é andar de all star de 60 reais, camiseta de Che Guevara de 120 reais, óculos estilo Raul Seixas de 400 reais, e um carrinho velho de 16 mil, mas afinal, a liberdade não tem preço, use master card e parcele tudo em cinco vezes.
E eu aqui não posso nem desejar que os Estados Unidos da América se foda porque a gente acaba se ferrando junto. Ainda tenho que engolir que o mundo todo se mobilizando em favor de um país que promove guerras, mata seu próprio presidente e Martin Luter King, subjuga os pais mais fracos economicamente em favor da democracia capitalista para que todos possam ter o direito de comparar all star e comer um hambúrguer do Mac Donald, um merda de país que tem que ser engolido goela abaixo com um presidente terrorista que me provoca náusea.
Mas quer saber, uma parte de mim quer que o mundo entre em colapso mesmo, para que pelo menos possamos repensar toda a estrutura e forma de organização mundial. Vivemos e ainda louvamos instituições falidas como se fossem verdades absolutas ou única forma de conceber e organizar o mundo. Infelizmente a história já mostrou que só nos momentos de crise repensamos e refletimos nossos valores e instituições como família, escola, política. Meu único medo é que os evangélicos dominem o mundo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Abduzida

Já repararam como o consultório odontológico parece com aqueles filmes de ficção científica em que o extraterrestre rapta um terráqueo para abri-lo e examiná-lo. Foi mais ou menos assim que eu me senti naquela maca com aquele olinhos em cima de minha cabeça, aquelas mãos com luvas, máscaras, toucas, jalecos (tudo muito branco), fora aquelas brocas, pinças, sugador de saliva, tudo aquilo dentro da minha boca, que não é tão pequena, mas eu sou capaz de jurar que não cabia. E a moça com aquele suga-saliva, o que tinha de bonita tinha de desajeitada, quase me deixou desidratada, e por pouco não levou a minha língua com o dente, bochecha e tudo junto. Mas tenho que confessar, a vista lá de cima era linda!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Café Russo: sem rumo II

Eu avisei que este conto não teria fim! É que a vida continua, embora bandoleiro. E apesar desta roleta russa de amores e desamores meu coração cigano não se ressente. E mesmo que, ao me olhar no espelho eu veja gotículas salinas que deságuam por ninguém, não há sinal de amor por trás dessas lágrimas, não há alma neste corpo, apenas café para dar ânimo.

Resolvi arremessar tudo pro alto, apostar que o ser humano é capaz de voar! Preparei minha mala. Estou decidida, vou abandonar tudo, ficarei apenas com meu caráter. Não, não é uma solução, mas eu não estou em busca de uma. Acendi um cigarro e sentei-me naquela mesma mesa branca onde tudo começou naquela manhã cheia de possibilidades e que acabou por tornar-se eterno retorno. E minha cachorrinha Dudi continuava me espiando e vigiando cada passo meu com aqueles olhos albinos.

Nada de novo, nada mudou de lá pra cá. Ah sim! como poderia me esquecer! troquei o fogão de lugar com a mesa. Hábito terrível que adquiri com minha mãe, sempre mudando os móveis de lugar, os mesmos velhos e encanecidos móveis, mas que me renderam bastante ocupação nas noites de insônia, e bastante insônia ao vizinho.

Decidi largar a terapia de insônia à base de maracujá e camomila (depois de um tempo essas coisas não fazem mais efeito) e fui preparar um café na cafeteira italiana. Só o aroma daquela água fazendo amor com aquele pó marrom se entrecruzando e fundindo bastavam para me embriagar e me remetia a dias passados quando consegui este pó na casa de um velho amigo e em seu próprio quintal torramos e moemos os grãos do mais saboroso arábica. E aquela fumaça tão carregada de nostalgia me fazia fechar os olhos por alguns segundos, e por alguns segundos eu pude acreditar que tudo é possível.

Quando levantei as pálpebras pude ouvir minha cachorra falando “sua idiota”, sacudi o rosto “Calma Catharina, deve ser algum devaneio ocasionado pelas noites sem dormir sem dormir.” Mas as palavras de Dudi ainda ecoavam em meu estômago.

O café estava pronto, coloquei-o na xícara e como sempre derramei um pouco na toalha, decidi assassinar essa maldita consciência em meu estômago com um banho de café quente. O alívio foi imediato. Dei mais um trago no segundo cigarro cuja cinza se estendia por todo seu comprimento, e lembrei de também assassina-la no cinzeiro antes de provocar algum incêndio. Olhei para a janela e naquele estreito pedaço de céu espremido entre o concreto meus olhos procuravam voar e minha perna inquietava-se por debaixo da mesa.

Aquela espera me deixava angustiada. Não tinha certeza se deveria esperar Pedro chegar para avisá-lo que eu estava de partida, ou se simplesmente deveria deixar um bilhete, ou talvez desaparecer sem deixar notícias. E apesar dos extremos de minha vida, desta vez optei pelo meio termo e escrevi um bilhete. “Pedro, vou embora meu bem, o mundo é muito maior que estas paredes que nos cercam. A janta está no forno. Beijos. Catharina.”

Dei meu último trago no cigarro e o apaguei no cinzeiro que eu e Pedro compramos no dia em que resolvemos que moraríamos juntos em sua casa. Ele tinha o péssimo hábito de não fumar e não queria que eu comprasse o cinzeiro, ainda mais naquele preço, talvez porque em algum devaneio em queria acreditar que eu pararia, mas por fim eu o convenci de me dar aquele cinzeiro de presente, ele sempre soube que eu o manipulava, mas fazia pouco caso em me contradizer. Dei meu último trago naquela xícara de café, aquela xícara estúpida que já se encontrava ali antes mesmo de eu chegar, eu não teria o péssimo gosto de comprá-la.

Levantei impulsionada pela cafeína. Minha consciência ainda me olhava com aquele focinho albino. Peguei a mala e ao fechar a porta dei de cara com Pedro. Estou indo embora Pedro, e é para sempre. Mas pra onde você vai? Para fora da possibilidade. Como assim? Reencontrei um antigo namorado, Paulo Roberto, e nós vamos fugir. Para onde? Se eu dissesse não seria uma fuga, mas agora vamos, deixe de novelas mexicanas. Adeus.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Le Café Français

O café nunca foi francês nem brasileiro, o café é das cabras. Acharam, comeram e foram dançar há alguns séculos atrás na frente de um pastor da Etiópia:
Revelaram para gente o produto. Os árabes chamaram de Kawa e em Alexandria lá no século X lançaram um tipo de estabelecimento batizado do mesmo nome: café. O produto era bom, além de fazer dançar as cabras, ele fazia pensar os homens e os homens que pensam fazem evolução. O café traz na história dele encontros e palavras; estas palavras que querem mudar o mundo; essas palavras interditadas por aqueles que pensam no lugar dos outros, aqueles que pensam que a gente não pensa.

(Jean-Pierre Giacardi)

Foto por Syã Fonseca

Le café Français funciona toda sexta e sábado no Estaleiro do Inó

Praia das Castanheiras, Jesus de Nazareth, Vitória.

ao lado do bar do Bigode

tel: 3224-3890

http://lecafefrancais.blog.terra.com.br/

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Terminal

Ontem eu perdi o dia
Hoje conheci o atraso
E me encontro parado, sentado
Em lugar algum
Com mil possibilidades e não encontro
Pois só queria uma, e não posso ter
Eu não te encontrei
E por não te achar, me encontro perdida
Em lugar algum
E se esse amor não fosse sublime
Eu sentiria vontade de gritar
Mas no momento só quero um abraço
Vamos, me envolva em seus laços
Me procure estarei sempre aqui
Em lugar algum
Enquanto não te encontro
E se pudesse sentir meu corpo neste momento
O sentiria pálido, gelado
Por que não me procurou?
Agora estou perdida no terminal
Sem saber para onde ir,
O que queria, não pude
E enquanto todos passam apressados
A procura de algo
Eu me encontro em lugar algum
Pois não há seu sorriso
A noite se pôs
Meus lábios se puseram
E eu não te encontrei

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Vermelho como o Céu

Aposto que a primeira coisa que veio a sua cabaça foi: “Mas o céu é azul”. Nem sempre, eu responderia, hoje, por exemplo, o céu está cinza, a noite ele fica preto-azulado ou azul-marinho, com gotículas brancas, azul, amarelas e alaranjadas, se prestar bastante atenção verá uma lua. E no fim de tarde, nas grandes cidades, pode ficar cinza, uma cor um tanto indefinida, nem dia nem noite. Mas se tiver o privilégio de observar o crepúsculo em outro lugar perceberá que ele lilás, rosa, laranja, amarelo e porque não, vermelho!
Se eu te perguntasse qual o sentido que você tem mais aguçado, olfato? paladar? audição? Acredito que não responderia visão, talvez porque estamos tão habituados a ver que esquecemos que esse sentido é tão importante em nosso dia a dia. Você tem olhos, certo? Se tiver, feche-os. Vejo que não consegue ler o que escrevo. Mas feche os olhos! O que você sente? Na frente de minha casa tem um pé de manga carregado de passarinhos, eu consigo ouvi-los piar, você ouve? Se estiver num lugar tranqüilo aposto que pode ouvir o barulho do seu computador, mas se tiver numa lan house ouvirá outras pessoas batendo na tecla, se estiver em casa com mais alguém aposto que tem uma televisão ligada, ou alguém conversando no telefone. E a cadeira em que está sentado, é confortável? Está ventando onde você está? ou tem ar condicionado? Faz frio ou calor?
Bem, certamente não prestamos muita atenção nessas coisas em nosso cotidiano! Se tiver olhos e puder enxergar (acredito que assim, afinal está lendo isso agora) então minha dica seria ver o filme “Vermelho como o céu” (Rosso Come Il Cielo, Itália, 2006) que está em cartaz no Metrópoles essa semana e a próxima, mas tem que conferir o horário no jornal.
Talvez assim possamos exercitar os outros sentidos de nosso corpo que temos esquecido por esses dias. Vamos feche os olhos e me diga o que pode sentir. Conseguiria se locomover por sua casa? prestaria mais atenção no barulho dos poucos passarinhos espalhados pelas árvores das grandes cidades? Você se daria conta de seu andar, de seus pés aprisionados em seu sapato? Vamos tire os sapatos, o chão é frio ou quente, duro ou macio? A brisa que corre é úmida ou seca? Mas eu tenho certeza que não fechou os olhos! Cerre -os agora!

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Café Russo: a crônica.

Nesta manhã cheia de possibilidades me afogo e embriago no copo de café para me manter acordado, precisava levantar minhas pálpebras, dilatar minha pupila e conectar meus neurônios. Já se foram sete copos, sem açúcar. Naquela semana, para piorar minha saga neste mundo torpe, havia perdido meus óculos, o segundo em dois anos, não me pergunte onde, se soubesse estaria vestida de meus olhos, mas não sei, há algo no meio do caminho que não recordo.

A preguiça e a falta de sentido ocular me embriagavam mais. Não sabia bem o que tinha acontecido direito por aqueles dias, parte pelo álcool, parte pela miopia, parte pela preguiça. Mas justo hoje, naquele momento, precisava mover minhas pernas, meus braços, mexer meus quadris. Precisava mover-me daquela cadeira. e sabia que só conseguiria tal feito com muito café na veia para impulsionar meu corpo.

Primeiro senti os dedos do pé. Fiquei feliz em saber que eles ainda estavam por ali. Num susto, já me dei conta de minhas pernas, minhas nádegas pregadas naquela cadeira, meus braços escorados sobre a mesa, consegui ouvir um barulho vindo de meu peito, estava viva, percebi minhas mãos coladas na xícara de café, caminhavam até minha boca e depois voltavam a se apoiar na mesa. e como se tivesse voltado ao meu corpo depois de aprecia-lo abaixo de meus olhos, enxerguei, embora embaçado, a geladeira em minha frente e minha cachorra a me espiar com aqueles olhos molhados e focinho albino, sempre pedindo carinho.

Pela primeira vez notei que tudo era tão branco, o piso branco, o azulejo branco, o fogão branco, a pia branca, o armário branco, a mesa branca, a dudi branca, a toalha de mesa branca, a batedeira branca, a xícara branca, o banquinho branco, a mesa branca. Eu pálida e o café preto, bem preto, amargo, a estalar minha goela, quente, e esquentava meus dedos frios, aquecia meus ânimos e tornava minha íris escura.

Num impulso levantei-me, aquele era o momento, eu pude sentir. Levantei-me num golpe só, sem medo. Confesso que minhas pernas tremeram, afinal não há café neste mundo que me faça recuperar toda a energia que perdi neste mês, mas logo firmei meu corpo ao chão.

No transcol lotado, percebi o porquê de minha recusa de sair de casa. Eu baixinha, ainda inexperiente, me espremendo entre braços, bundas e peitos, me via esticada tentando alcançar a alça no teto. Um braço de cada lado, e meus pés se punham na ponta dos dedos, justo eu que nunca tive vocação pra bailarina. Na curva percebi o valor de um ônibus lotado, pois os tórax ali dispostos e estirados não me deixaram cair e espatifar no chão com a delicadeza de uma jaca. E eu ali com os braços para o alto e as pernas tencionadas me via num impasse de ironia invertida: ressuscitada pelo café e crucificada num navio negreiro pós-moderno.

Trabalho, café, trabalho, café, trabalho, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, trabalho, café, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, trabalho, café, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, trabalho, café, trabalho, café, café, café, café, ônibus lotado.

No final da noite, frenética, e por razões lógicas, insônia. Já até encontrei uma categoria que inventei para me enquadrar em alguma coisa, afinal neste mundo não dá pra viver a deriva, temos que nos enquadrar em alguma categoria. A minha: esquisofrenética. Esquiso por parte da insônia e frenética por conta do café.

E mamãe insistia em dizer:
-Quem tomou todo o café?

E eu respondia com os olhos arregalados:
- Você é claro!