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domingo, 21 de dezembro de 2008

Pensamento - Arnaldo Antunes




Pensamento
Arnaldo Antunes

Pensamento que vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

E agora, José?

A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 21 de junho de 2008

Ode – Um Corpo de Vinho


“É a noite, são as ondas deste mar e os roucos sussurros de Janis cantando Summertime”, me dizia ela, mas eu precisava lhe dizer que não, querida, é mais que isso que traz para nós esse poder mágico. Somos tão diferentes, entretanto somos cúmplices desta noite consagrada. Somos nós que trazemos para as ondas que quebram na areia fina desta praia este brilho sedutor, são nossas vozes combinadas que fazem essa melodia ser tão agradável, é o que compartilhamos que nos tornaram eternas na madrugada passada, não foi a música nem o frio que fizeram daquele carro o melhor lugar para se estar naquele instante. Não foi o doce prazer do paladar que nos satisfez, mas todas em volta da mesa, na maior das liberdades atingidas, a de nos desfrutar, uma da presença da outra, estávamos vivendo queridas, estávamos exercendo o milagre de existir. É a beleza de cada peculiaridade combinada com a condição que compartilhamos, e não tente, doce menina, medir qual de nós aguçamos mais essa condição, ser mulher nunca vai ser miscível, mesmo porque como disse a outra gota deste vinho, essa condição não possui parâmetro. Nós soubemos viver amores, somos o corpo de um fino vinho, nós nos vivemos nesta noite entorpecedora. Não vivemos o paladar nem a audição nem a visão, vivemos algo muito mais sublime, vivemos nesta noite nossa condição de mulher, compartilhada num êxtase que nunca mais viverão em outro lugar se não naquele tempo e espaço da noite passada.
Texto de Natali Braga





Baixe aqui “O Quereres” com Caetano Veloso: http://www.mediafire.com/?nznsjzenmdw

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A Ética do Assalto

Tudo bem. Este título é totalmente sem lógica e sem sentido. Assalto é assalto, ética é ética. Mas não foi bem assim que Joana achou, pois havia lido a poucos dias uma definição sobre ética que dizia: conjunto de regras que orientam a conduta em uma atividade profissional.

Ao chegar ao ponto de ônibus, ansiosa em saber se o coletivo que contava já havia passado ou não, um rapaz se aproxima e diz:

- Fique quieta e passa o celular. Eu só quero seu celular!

Como muito bem havia aprendido com as recomendações de especialistas em segurança, ela não reagiu. Pegou prontamente o celular na bolsa e entregou ao rapaz e se dirigiu ao sinal para poder atravessar a rua e sair daquela situação desagradável. Entretanto o rapaz se aproximou um pouco mais enquanto ela caminhava e disse:

- Agora passa o dinheiro. Se gritar eu taco este celular na sua cabeça!

Joana não pensou duas vezes e resmungou que não. Como poderia o homem quebrar o acordo feito há segundos atrás, de só levar o celular? Joana não discutiu com o homem nem muito menos se mostrou provocativa. Apenas seguiu andando enquanto ele se aproximava de outras duas mulheres. Atravessou a rua e se dirigiu até sua casa. Escolheu dar as costas ao rapaz, e este resolveu não tacar o celular em canto algum, afinal, o objetivo inicial de sua missão era sair com um celular de lucro sem gritos e conflitos e não com um celular quebrado e uma cabeça ferida. Que bom para Joana que o objetivo do rapaz era este, afinal, o acordo só existia na cabeça dela!

PS: me desculpem a invasão da segunda, mas é pq eu precisava desabafar!!!rsrsrs

sábado, 24 de maio de 2008

Dia Nacional do Café!


Como deixar passar em branco o aniversário do principal homenageado deste blog?
Manhã e café, tudo a ver. Papo e café, nem se fala. Os fumantes dizem que com um cigarrinho não há nada melhor.
O Brasil é o maior produtor e exportador do grão e, em consumo, perde só para os Estados Unidos.
Esta bebida que excita o sistema nervoso, ativa o cérebro e a circulação do sangue, tonifica o coração e os músculos, combate derrame cerebral, asma, diarréia, embriaguez e depressão é cada vez mais consumida no país.
Vício bom este, não??? Aprecie sem culpa e sem moderação!

sábado, 17 de maio de 2008

Ordem e Progresso



Aos que têm o hábito de assistir TV sem se comover com sensacionalismos, certamente está farto de ouvir notícias sobre o “Caso Isabela”; aliás, sobre “O Caso Isabela”, afinal, não se trata de qualquer caso, não é mesmo?

Não pretendo desconsiderar a crueldade do acontecimento. De fato, a notícia de que uma criança de 5 anos foi asfixiada e arremessada do 6º andar e os principais suspeitos são o pai e a madrasta gera espanto e incompreensão. Entretanto, considerando que casos semelhantes acontecem cotidianamente, e que se trata de um fato particular, em que as famílias envolvidas são as únicas realmente prejudicadas com o ocorrido, lhe pergunto o por que de tanta comoção social. E as injustiças coletivas, em que o direito de toda uma população é violado? Onde estão, nestes momentos, a fúria e a disposição para ir às ruas gritar por justiça?

Tentemos nos recordar de outro caso repulsivo, com conseqüências e significações coletivas, em que uma das partes envolvidas representava o Estado. Falo do massacre do Complexo do Alemão ocorrido no ano passado. Quais eram mesmo os nomes dos mais de 20 mortos nesta chacina? O corpo da foto era de uma criança. Qual era mesmo o nome dela? Que idade tinha? Será o menino de 13 anos, um dos três adolescentes incluídos nos 19 mortos em um dia, coletivamente catalogados pela polícia e por uma parte da imprensa como “bandidos”?

Vale lembrar que a quase totalidade das mortes se tratou de execuções sumárias, e a ação foi planejada pela Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, que contou com 1300 policiais militares e membros da Força Nacional de Segurança. Mas, me parece que o importante é que a ordem seja mantida, e apenas casos como “O de Isabela” ferem a esta normalidade, merecendo assim, tanta indignação e visibilidade.

sábado, 3 de maio de 2008

Drummond

Deixo hoje um dos poemas de Drummond que mais gosto.

Este poema apareceu inicialmente,
com o título "Verdade", no livro Corpo, de 1984, um ano antes da publicação de Contos Plausíveis, de onde foi extraída esta versão.



A Verdade Dividida
A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.





sábado, 26 de abril de 2008

Abram Alas pro Morro

Engraçado como alguns desconfortos são prazerosos.
A subida da ladeira me fazia ofegar e ainda assim a sensação era de prazer. De todos os morros que já subi, este foi o primeiro em que fiquei a beira mar.
O café a que nos dirigíamos era francês.
Instantes após a chegada visualizamos o apagar das luzes do convento abençoando a libertação dos prazeres profanos.
Ainda não estava embriagada, mas era como se estivesse. Meu corpo se movia com a dança sem qualquer esforço nem acanho. A música era ótima, o espaço agradável e todas as sensações estavam à flor da pele.
Sabia que não era bem-vinda por todos. Alguns olhares me mostravam isso a todo o momento. Ainda assim, me sentia em casa. Tudo ali, até mesmo estes olhares, me interessava. Atrás do balcão se encontrava a francesa, que por se tratar de um ser andrógino, atraía até mesmo mulheres heterossexuais. Junto dela, estava um japonês-índio. Nunca havia conhecido pessoas com essa miscigenação, e confesso que se me contassem, duvidaria da possibilidade de se tratar de uma pessoa interessante.
O elemento negro se encontrava em quase tudo e todos. O gingado, a música, os sorrisos, a pele, os dentes. As horas passavam e o café, moído na hora, nos mantinha acordados e vivos.
Chegou um momento em que dançava e cantava olhando dentro de olhos tão queridos, de amigos tão amados, e tinha a absoluta certeza de que a minha sensação era comum àquelas pessoas. O lugar foi se esvaziando, o domingo clareando. Era hora de descer a ladeira, pois a missa dominical estava prestes a começar.


O Morro Não Tem Vez (Tom Jobim) com Afonso Abreu Trio - Afonso Abreu ao contrabaixo, Pedro Alcântara ao piano, Marco Antônio Grijó à bateria e Melão à percussão.