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sábado, 15 de agosto de 2009

AMIZADE

Um dia a maioria de nós irá separar-se.
Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das descobertas
que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos
que partilhamos.
Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia,
das vésperas dos finais de semana, dos finais de ano,
enfim… do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.
Hoje não tenho mais tanta certeza disso.
Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum
desentendimento, segue a sua vida.
Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe…nas cartas que trocaremos.
Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices…
Aí, os dias vão passar, meses…anos… até este contacto se tornar cada vez mais raro.
Vamo-nos perder no tempo….
Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e perguntarão:
- “Quem são aquelas pessoas?”
Diremos…que eram nossos amigos e…… isso vai doer tanto!
“Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!”
A saudade vai apertar bem dentro do peito.
Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente……
Quando o nosso grupo estiver incompleto…
reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo.
E, entre lágrima abraçar-nos-emos.
Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante.
Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vida, isolada do passado.
E perder-nos-emos no tempo…..
Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades….
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos
os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!”

Fernando Pessoa

sábado, 1 de agosto de 2009

Recordações

By José Saramago

Somos a memória que temos, sem memória não saberíamos quem somos. Esta frase, brotada da minha cabeça há muitos anos, no fervor de uma das múltiplas conferências e entrevistas a que o meu trabalho de escritor me obrigou, além de me parecer, imediatamente, uma verdade primeira, daquelas que não admitem discussão, reveste-se de um equilíbrio formal, de uma harmonia entre os seus elementos que, pensava eu, contribuiria em muito para uma fácil memorização por parte de ouvintes e leitores. Até onde o meu orgulho vai, e apraz-me declarar que não chega muito longe, envaidecia-me ser o autor da frase, embora, por outro lado, a modéstia, que também não me falta de todo, me sussurrasse de vez em quando ao ouvido que tão certa era ela como afirmar com toda a seriedade que o sol nasce a oriente. Isto é, uma obviedade.

Ora, até as coisas aparentemente mais óbvias, como parecia ser esta, podem ser questionadas em qualquer momento. É esse o caso da nossa memória, que, a julgar por informações recentíssimas, está pura e simplesmente em risco de desaparecer, integrando-se, por assim dizer, no grupo das espécies em vias de extinção. Segundo essas informações, publicadas em revistas científicas tão respeitáveis como a Nature e a Learn Mem, foi descoberta uma molécula, denominada ZIP (pelo nome não perca), capaz de apagar todas as memórias, boas ou más, felizes ou nefastas, deixando o cérebro livre da carga recordatória que vai acumulando ao longo da vida. A criança que acaba de nascer não tem memória e assim iríamos ficar nós também. Como dizia o outro, a ciência avança que é uma barbaridade, mas eu, a esta ciência não a quero. Habituei-me a ser o que a memória fez de mim e não estou de todo descontente com o resultado, ainda que os meus actos nem sempre tenham sido os mais merecedores. Sou um bicho da terra como qualquer ser humano, com qualidades e defeitos, com erros e acertos, deixem-me ficar assim. Com a minha memória, essa que eu sou. Não quero esquecer nada.

sábado, 11 de julho de 2009

Reflexão de Pensées Pascal


" As ciências têm dois pontos extremos que se tocam. O primeiro, é o estágio, de pura ignorância natural onde se encontram os homens ao nascer. O outro, é aquele a que chegam as grandes almas, depois de pecorrer todos os caminhos do saber e descobrir que nada sabem, se encontrando no mesmo estágio de ingnorância de onde partiram: sendo esta, entre tanto, uma ignorância sábia, que se conhece".

terça-feira, 26 de maio de 2009

Anseio por um tempo
Aquele tempo que tudo resolve
O tempo do Deus Sol
Que irradia exuberância
Que queima a pele e faz arder a alma
Um tempo onipotente e onipresente
O tempo da abonância
Mas as nuvens insistem em aparecer
E o sol a desaparecer
O céu escurece, as nuvens se enchem de água
Que cai como lágrimas de olhos cansados
De ansear
Por esse tempo
Que tudo resolve, mas nada dissolve
Autoria própria.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Ofiovermelho

A vida está por um fio.
Fio elétrico,
fio de angústia,
fio de prazer, telefônico,
digital.
O computador imita o cérebro
e o fio o coração.
Ontem salvei-me por um fio,
um tiro de raspão.
Uma polícia comunica outra,
que comunica outra,
que comunica outra;
não usam fio,
só o maldito rádio.
O quarteirão está cercado.
Os reféns: você e eu. Nós.
Começa o tiroteio,
VOCÊ MORRE,
eu me salvei pelo triscar de um fio.
A notícia se espalhou.
O equilibrista em cima do fio quase caiu,
quando viu aquele tablóide vil:
EU ESTOU VIVO!
O fio da navalha
corta o céu da boca em tons vermelhos.
Não adianta gritar! Cortei o fio do telefone.
Não há choro que me valha.
O fio umbilical está enrolado no pescoço do meu filho.
SOCORRO!
Minha mulher é um poste,
com a cabeça repleta de fios emaranhados.
O rio caudaloso, d’águabundante
Não passa agora de um fio quase partido
A mulher secou!
A polícia atira filas e fios de chumbo
Meu rosto só sabe escorrer fios d’água vermelha.
Fio de uma grande puta.
Qual títere que corta o fio da confiança
De quem o controla, de quem o manipula,
E foge não deixando nem um fio de poeira,
E foge... e foge... e não faz outra coisa que não seja fugir.
Alucinado qual criança.
Foge pra não precisar admitir que não sabe dançar sozinho.
De que vale um equilibrista sem a altura do fio esticado?
Pronto, o filho morreu.
Você e o filho estamortos
E se mortos, estáticos.
Paralisados de um furor nunca visto,
Mostram vísceras imensas.
Se ontem me salvei
É porque os intrépidos estão mortos.
Fio de repente um tapete mágico,
Com fios de diamante macio,
Para que os fortes limpem seus sapatos.
A lâmina é sutil até o ponto
Onde o fio nem é tão afiado assim.
Se ontem me salvei
É porque não há consenso,
Não há fio que valha o estupor,
Não há lágrima que valha o choro,
Todo fio tem seu fim
Todo fio tem seu início,
No começo mesmo do mundo
Onde as vozes’inda não ecoavam
Onde o fio nem era tão afiado assim.
Não há fio contínuo
Nem tão pouco separado.
A própria contra-mola é um fio retorcido
Que resiste à força de ser reto
No anteparo obliquo
Que separa por um fio
O presente do futuro.
é sobre seu imenso corpo
que escorre o fio do azeite
e rodelas de cebolas, um ornamento
lá no local onde se fia
exatamente o fiador.


Foi isso! Retirava dos dentes o fiapo
Enquanto assistia traquilamente
A tv do fiasco.

Autor desconhecido.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Meu sobrenome é angústia
Meu passado me embrulha o estômago
Meu presente me dá um nó na garganta
Meu futuro me dá calafrios
Sensações da minha angústia
Como cada estação do ano ela muda
No verão é vermelha e intensa
No inverno é cinza como o céu
No outono se torna vazia, como as árvores que perdem suas folhas, é uma ausência de cor
Na primavera ela se revigora, assim como o desabrochar das flores
O tempo, as estações, e o sobrenome podem mudar mas não deixam de existir, fazem parte da vida
Assim como a minha incessante angústia

Autoria própria.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Como encarar a morte?


O Triunfo da Morte - Peter Brueghel

Uma pessoa que conhecia partiu, deixou seu corpo, mas a lembranças estarão em mim. E apesar da morte ser minha única certeza, por mais sabido, a ignoramos e ela vêm e novamente me passa uma rasteira.

Como encarar a morte.

Carlos Drummond de Andrade

De longe

Quatro bem-te-vis levam nos bicoso batel de ouro e lápis-lazúli, e pousando-o sobre uma acácia cantam o canto costumeiro. O barco lá fica banhado de brisa aveludada, açúcar, e os bem-te-vis, já esquecidos de perpassar, dormem no espaço.

À meia distância

Claridade infusa na sombra, treva implícita na claridade?Quem ousa dizer o que viu, se não viu a não ser em sonho?Mas insones tornamos a vê-lo e um vago arrepio vara a mais íntima pele do homem. A superfície jaz tranquila.

De lado

Sente-se já, não a figura, passos na areia, pés incertos, avançando e deixando verum certo cógifo de sandálias. Salvo rosto ou contorno explícito, como saber que nos procura o viajante sem identidade?Algum ponto em nós se recusa.

De dentro

Agora não se esconde mais. Apresenta-se, corpo inteiro, se merece nome de corpo o gás de um estado indefinível. Seu interior mostra-se aberto. Promete riquezas, prêmios,mas eis que falta curiosidade, e todo ferrão de desejo.

Sem vista

Singular, sentir não sentindo ou sentimento inexpresso de si mesmo, em vaso coberto de resina e lótus e sons. Nem viajar nem estar quedo em lugar algum do mundo, só o não saber que afinal se sabe e, mais sabido, mais se ignora.

domingo, 25 de maio de 2008

HOMENAGEM A PAGU

Patrícia Rehder Galvão (1910-1962), mais conhecida como Pagu: Jornalista, escritora e militante comunista e principalmente uma mulher desafiadora. Foi presa, torturada, foi amante,fumava na rua, usava roupas transparentes,tornou-se musa do movimento antropofágico de cunho modernista, causou-se e deixou filho e marido (Oswald de Andrade), viajou pelo mundo. Escandalizou, desafiou e resistiu aos padrões impostos pela sociedade. Na véspera de sua morte (causada por câncer) seu último texto é publicado: o poema Nothing.
Poema de Pagu
NOTHING
Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel's check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada

domingo, 18 de maio de 2008

Olhares desnudos

Olhares que me encaravam de frente e que me tornavam desnuda

Olhares insuportáveis que expressavam a vontade de ser o outro

Acendo um cigarro, tomo um gole de cerveja e tento na distração do meu ser esquecer tais olhares.

Porque me importunam, o que querem de mim?

Eu que só quero deixar os meus pensamentos vagarem em meio aquela paisagem incessante com o céu estrelado, a água corrente, a lua, o balanço das folhagens.

Nesse mundo com tantas coisas a serem observadas porque o observado sou eu . Eu que só quero no meu canto admirar o encanto dos seres ao meu redor .

Encontro o desencanto do ser que deveria ser tão precioso quantos os outros.

O ser humano que na cegueira da inveja torna imperceptível pormenores daquele dia fugidio.

Os olhares que me desnudam me tornam mudo diante deste mundo.

Não tendo olhos bastantes a contemplarem, esses olhos se perdem na insensatez da mediocridade humana.

Autoria própria.

domingo, 27 de abril de 2008

RECOMEÇO

Recomeçar é sempre um grande passo

Porque é difícil esquecer o passado

Os momentos bons que foram vividos

É difícil se desapegar das coisas, das pessoas

Devido a essa nostalgias esquecemos de viver o presente

E aproveitar os momentos que estão sendo vividos

O passado parece sempre melhor que o presente

O que torna o recomeço difícil

O eu é esquecido o outro parece sempre melhor e mais importante

A vida parece sem graça, uma desgraça

Onde nada é bom o suficiente,nada é melhor do que o que se foi

Sendo que o que se foi, realmente deveria ter ido

Mas parece entranhar-se na sua alma, no seu corpo

O presente esquecido se torna enfadonho

E os momentos bons que a vida lhe oferece parecem inoportunos

E quando o passado já não se fizer mais tão presente

Finalmente poderei dizer esse é o meu recomeço

Autoria própria.