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sexta-feira, 13 de março de 2009

A EXCOMUNHÃO DA VÍTIMA

Parabéns aos poetas desconhecidos da mídia, poetas dos sertões, das mazelas, mas verdadeiros poetas brasileiros.

Peço à musa do improviso
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria,
Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.

Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.

Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.

Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.

O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.

Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina, sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.

É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.

Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda,
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.

Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.

E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão.

O poeta Miguezim da Princesa é da Paraíba
Merece muito mais do que uma postagem.

domingo, 14 de dezembro de 2008

O mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa, que cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem do outro lado; e nenhum entre nós há de transgredir esta divisa, nenhum entre nós há de estender sobre ela sequer a vista, nenhum entre nós há de cair jamais na fervura desta caldeira insana, onde uma química frívola tenta dissolver e recriar o tempo; não se profana impunemente ao tempo a substância que só ele pode empregar nas transformações, não lança contra ele o desafio quem não receba de volta o golpe implacável do seu castigo; ai daquele que brinca com fogo: terá as mãos cheias de cinza; ai daquele que se deixa arrastar pelo calor de tanta chama: terá a insônia como estigma; ai daquele que deita as costas nas achas desta lenha escusa: há de purgar todos os dias; ai daquele que cair e nessa queda se largar: há de arder em carne viva; ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que se antecipa no processo das mudanças: terá as mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um branco frio, ou quem sabe sepulcral, mas sempre a negação de tanta intensidade e tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que quer viver; cuidem-se os apaixonados, afastando dos olhos a poeira ruiva que lhes turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam turbilhões confusos, expurgando do humor das glândulas o visgo peçonhento e maldito; erguer uma cerca ou guardar simplesmente o corpo, são esses os artifícios que devemos usar para impedir que as trevas de um lado invadam e contaminem a luz do outro, afinal, que força tem o redemoinho que varre o chão e rodopia doidamente e ronda a casa feito fantasma, se não expomos nossos olhos à sua poeira? é através do recolhimento que escapamos ao perigo das paixões, mas ninguém no seu entendimento há de achar que devamos sempre cruzar os braços, pois em terras ociosas é que viceja a erva daninha: ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a terra para lavrar, ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a parede para erguer, ninguém ainda em nossa casa há de cruzar os braços quando existe o irmão para socorrer; caprichoso como uma criança, não se deve contudo retrair-se no trato do tempo, bastando que sejamos humildes e dóceis diante de sua vontade, abstendo-nos de agir quando ele exigir de nós a contemplação, e só agirmos quando ele exigir de nós a ação, que o tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto, é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens tristes, o consolo aos desamparados, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o repouso aos sem sossego, a paz aos intranqüilos, a umidade às almas secas; satisfaz os apetites moderados, sacia a sede aos sedentos, a fome aos famintos, dá a seiva aos que necessitam dela, é capaz ainda de distrair a todos com seus brinquedos; em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo,

RADUAN NASSAR

LAVOURA ARCAICA

domingo, 2 de novembro de 2008

Trampolim

Sem olhar, sem respirar
Sem rir, sem pensar, sem falar
Só te provo um lugar
Qualquer piscina ou mar de Amaralina

O amor não é mais do que o ato
Da gente ficar
No ar antes de mergulhar
Antes de mergulhar

Dance, dance, cante, cante
Muito alto, sem medo de tudo
De nada, sem medo de errar

Vejo uma boca vermelhar galhar
A paixão não é mais do que o ato
Da gente ficar
No ar antes de mergulhar
Antes de mergulhar

Maria Betânhia

domingo, 10 de agosto de 2008

Não Vale A Pena

Ficou difícilTudo aquilo, nada disso

Sobrou meu velho vício de sonharPular de precipício em precipício

Ossos do ofício

Pagar pra ver o invisível

E depois enxergar

Que é uma pena

Mas você não vale a pena

Não vale uma fisgada dessa dor

Não cabe como rima de um poema

De tão pequeno

Mas vai e vem e envenena

E me condena ao rancor

De repente, cai o nível

E eu me sinto uma imbecil

Repetindo, repetindo, repetindo

Como num disco riscado

O velho texto batido

Dos amantes mal-amados

Dos amores mal-vividos

E o terror de ser deixada

Cutucando, relembrando, reabrindo

A mesma velha ferida

E é pra não ter recaída

Que não me deixo esquecer

Que é uma pena

Mas você não vale a pena

Maria Rita

sábado, 26 de julho de 2008

Dura Lex, Sed Lex, na justiça só rolex

Eu não sou Roberto Dávila, mas também estou dentro do judiciário.

O poder judiciário parece um labirinto do Minotauro, o bestial lutador de Vale Tudo, e não a besta fera da mitologia grega.

O problema do judiciário é que ele tem muitas instâncias. Um juiz tem uma instância no Mato Grosso, um desembargador possui uma enorme instância em Goiás e um juiz federal também tem várias instâncias no Espírito Santo, onde cultiva o trabalho escravo.


Apesar de todos falarem latim, ninguém se entende no judiciário brasileiro.

Um juiz manda prender, aí vem um outro juiz, que tomou laxante, e manda soltar. No final da história, o juiz fica todo tocado. A justiça é cega e não vê o que acontece no judiciário brasileiro, mas sente o cheiro, o que é muito pior.

Mas nem tudo está perdido na justiça. Algumas pessoas insinuam, maldosamente, que a lei é dura, mas é mole comprar um juiz no Brasil. Isso não passa de uma mentira deslavada de um insulto, de uma calúnia, de uma falácia! Não é fácil comprar um juiz no Brasil. Tem que chegar cedo, entrar na fila e disputar a sentença com traficantes, Dantas, Pitta, Naji Nahas e .......

Data venérea, não posso reclamar da justiça brasileira. Sempre que precisei dos homens da lei pude contar com Costa Citty, Gilmar Mende, Marco Aurélio, Leopoldos... Contando junto com vários milhões de dólares. Outro dia mesmo, quando um ladrão de galinhas resolveu levar a Isaura, a minha patriota, na mão grande, a justiça se fez presente.

Depois de receber um presente, a justiça meteu o bandido na cadeia, onde cumpre a pena de prisão perpétua.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O Drama de Herculine

Herculine Babin, um hermafrodita do século XIX que vive como menina num convento até um dia, aos 20 anos, confessa a padres e, posteriormente, a médicos que seus desejos e práticas eróticas se dirigem às meninas.

A partir desses momentos é obrigado a assumir legalmente o sexo masculino, a vestir-se como homem e a se afastar das meninas com quem vivia, inclusive sua amante. Butler afirma que Herculine sofre com a injunção de ter de pertencer a um dos dois sexos e deposita em seu corpo a causa do sofrimento.

Um corpo anômalo, razão de seus desejos e aflições, que provoca confusões de gênero e estimula prazeres transgressivos. Mas Butler discorda de Herculine. A causa do sofrimento não estaria no corpo, mas sim nas cobranças médicas, religiosas, jurídica e social de um gênero inteligível.

Herculine não poderia ser mulher ou homem “por inteiro” como idealizava seus interlocutores da época. Então, não lhe restava o que ser, pois lhe permitiam existir somente como desviante ou doente. Nas seqüências dos acontecimentos, Herculine se suicida.
Judith Butler.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Liberalização X Restrição. Qual é a verdadeira questão?

O debate entre segurança pública, tráfico e usuário de droga vem tomando espaço nas posições da imprensa. De um lado, existe um público que é a favor da manutenção de leis que proíbem o consumo e o outro público que defende a legalização do uso.

Após a desclassificação da seleção do Botafogo, fui sacear minhas amarguras lendo a matéria publicada sobre o livro McMáfia. O crime sem fronteiras. De acordo com o livro, o crime organizado que engloba a produção e o consumo de tráfico de armas e drogas representação 20% da economia mundial segundo o FMI. Esses 20 % representa entre 17% a 25% do PIB mundial.

Isto me chamou a atenção para entender a escala mundial do tráfico de drogas, que tem como matriz desde o contrabando de armas do EUA para Colômbia, ao cultivo de maconha no Canadá até o centro de produção de Ectasy em Israel e o cultivo de heroína na Afeganistão.

O deixa fazer do clássico Iluminismo, significa que a produção ilegal é a principal atividade econômica de oligarquias legais que expandem o seu desenvolvimento no mercado financeiro. Fica claro entender que a criminologia sensacionalista tenta vende o round entre proibição X legalização, mas todos esses cenários fixam suas análises sobre a esfera micro do efeito social, nunca foi sobre a lógica do usuário ou do traficante local que se fomentou a endemia do crime.

As livres circulações de capitais sempre foram regulamentadas por órgão institucionais como OMS, Banco Mundial, ONU e outros, que autorizam e reconhecem a existência de famosos oligopólios como Tríade, Yakuza, Mercedes Bens e vários outros.

Em suma, o caminho da segurança pública é pautado pelo combate sem tréguas às drogas, mas com total permissividade a toda atividade empresarial e financeira. É sobre o Estado que se esteia a bandeira de combate ao tráfico, porém, é este mesmo Estado que regulamenta a liberalização econômica das atividades do crime.

Vejo que o maior obstáculo para a segurança pública não a questão da venda legalizada de drogas, pois o aumento de dependente químico precisa ser compreendido com uma questão de saúde pública também. O maior obstáculo que considero talvez esteja na capacidade de regular um mercado que é Liberal. Que legaliza o enriquecimento de grupos que extrai seu afortunamento através de atividade subumanas como a exploração sexual, como o tráfico de órgão, como o extermínio sumário ao dependente químico.

Encerro esta idéia com a seguinte constatação. O capitalismo do crime continuará triunfando sobre nós. E o resultado disto é demonstrado nas fotos das pessoas assassinadas a cada dia. O Laissez Faire que triunfou com escravagismo, agora reinscreve a casa grande e a senzala na contemporaneidade.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Por trás de um grande jogador existe sempre um grande travesti.

O escândalo do Ronaldo fenômeno com três travestis no motel Papellon continua na boca e em outros orifícios do povo. Debates acalorados, discussões suadas, mesas redondas, polêmicas...Em toda parte só se fala nisso, quer dizer só se fala nisso.

Afinal: o que se passou no quarto de motel com o famoso atracante rompedor Ronaldinho fenômeno? Alguns estudiosos atribuem ao Funk carioca o comportamento transgressor do craque, ou será que foi cocaína.

Alguns economistas acham que o problema é de natureza macroeconômica, que dizer microeconômica. Mas todo mundo quer saber é ser Ronaldinho foi ao motel comprar lã ou saiu tosquiado. No mundo machista e vil (desculpe, viril) dos vestuários de futebol o que se cochicha pelos cantos é que o célebre jogador de futebol trocou de posição, e agora joga recuado.

Mas, não se preocupe meu caro nobre goleador chanceler da Unesco, por trás de você sempre haverá uma grande, gigante Globo transvestida de Patrícia Punheta (desculpe novamente, Poeta) para acalentar seus eretos delírios da psique.

Os psi-cánalista preferem ver esta questão por um outro ângulo. Para os freudianos isto se trata de um complexo fundo nervoso. Bastante nervoso inclusive! Afinal foram quatro horas de terapia intensiva no quarto do motel, mas o diagnóstico preliminar comprovou seu estado deprimido, cheio de lesões e nesta turbulência errou a preferência.

Mas eu sou hetero!!!! Disso o atacante, cai numa cilada! Era uma quadrilha de travestis que queria extorqui meu dinheiro ganhado a duras penas!

Enfim, tentar tornar lúdico este fato talvez alivie um pouco as minhas angústias. Como disse Érika Kokay, essa é a parte que nos cabe neste latifúndio. Para mim, Leyse, se esta é a parte que me foi concedida, digo que é muito pouco. Não quero apenas o interior da minha casa, quero as Ruas, os Direitos, o Respeito.

Quero o reconhecimento digno do meu amor por uma mulher,

Como diz Clarice, Liberdade para mim é pouco.
O que quero ainda não tem nome.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Feliz Dias das Mães!

Hoje é o dia das mães e me lembro daquela que me gerou e criou com desvelo e abnegação.

Para pagar os meus estudos, minha querida mãezinha teve que pagar muitos boquetes na praça 15. 15 centímetros. Trabalhadora incansável, a fama de mamãe espalhou-se pelo mundo como uma DST.

Mulher empreendadeira, minha amada genitora introduziu o cancro mole e a gonorréia no Brasil. Graças aos saudorosos carinhos de minha mãezinha, tornei-me um homem de bem, bem escroto, bem canalha e bem filho da puta. Mas nem tudo são flores.

Para desgosto de minha mãe, não consegui realizar o seu sonho dourado de ter filho, senador, deputado, juiz de futebol ou presidente da república.

Disciplinadora rigorosa, costumava me espancar violentamente e, em seguida me arremessa do alto do edifício do jornal A Noite. Foi aí que ingressei no mundo do crime e do jornalismo. Consegui um estágio no extinto periódico, onde eu posava de cadáver nas matérias de assassinatos.

Publicado em algum jornaleco.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Minha Brasília

Quatro dias, noventa e seis horas e uma eternidade para lembrar duma Brasília tão seca, fria e corrupta, mas possuidora de uma sagacidade que me faz escrever.

Foram tantos que exalaram toda a fragrância de uma loucura juvenil estancada nos corpos, nos olhares, nos desejos que desconhecia a existência do outro.

Um encontro para lá de piriquitante!

Foi no quilombo, na sala, no quarto, durante noventa e duas horas de um frenético sopro do prazer crítico, irônico, alcoólatra, dopado.

Brasília deixa em nossa memória um pedaço de toda mistura étnica cheia de vícios e de sonhos.

Dessa lembrança guardo o choro de desespero em não ir que pré-sentia o quanto seria inédito estar lá.

Sobre este texto nostálgico fica a lembrança de uma conquista imaterial, preenchida com o novo, discutida com o outro e encerrada a cada noite embriagada nos braços de quem acabava de amar.

Mas é hora de fazer o check-in, chegou à hora de volta.

Volta para o cotidiano pobre, sem sonho, sem ideologias que guarda na alma o desejo de viver o próximo majestoso delírio humano.