sexta-feira, 25 de abril de 2008

Café Russo: a crônica.

Nesta manhã cheia de possibilidades me afogo e embriago no copo de café para me manter acordado, precisava levantar minhas pálpebras, dilatar minha pupila e conectar meus neurônios. Já se foram sete copos, sem açúcar. Naquela semana, para piorar minha saga neste mundo torpe, havia perdido meus óculos, o segundo em dois anos, não me pergunte onde, se soubesse estaria vestida de meus olhos, mas não sei, há algo no meio do caminho que não recordo.

A preguiça e a falta de sentido ocular me embriagavam mais. Não sabia bem o que tinha acontecido direito por aqueles dias, parte pelo álcool, parte pela miopia, parte pela preguiça. Mas justo hoje, naquele momento, precisava mover minhas pernas, meus braços, mexer meus quadris. Precisava mover-me daquela cadeira. e sabia que só conseguiria tal feito com muito café na veia para impulsionar meu corpo.

Primeiro senti os dedos do pé. Fiquei feliz em saber que eles ainda estavam por ali. Num susto, já me dei conta de minhas pernas, minhas nádegas pregadas naquela cadeira, meus braços escorados sobre a mesa, consegui ouvir um barulho vindo de meu peito, estava viva, percebi minhas mãos coladas na xícara de café, caminhavam até minha boca e depois voltavam a se apoiar na mesa. e como se tivesse voltado ao meu corpo depois de aprecia-lo abaixo de meus olhos, enxerguei, embora embaçado, a geladeira em minha frente e minha cachorra a me espiar com aqueles olhos molhados e focinho albino, sempre pedindo carinho.

Pela primeira vez notei que tudo era tão branco, o piso branco, o azulejo branco, o fogão branco, a pia branca, o armário branco, a mesa branca, a dudi branca, a toalha de mesa branca, a batedeira branca, a xícara branca, o banquinho branco, a mesa branca. Eu pálida e o café preto, bem preto, amargo, a estalar minha goela, quente, e esquentava meus dedos frios, aquecia meus ânimos e tornava minha íris escura.

Num impulso levantei-me, aquele era o momento, eu pude sentir. Levantei-me num golpe só, sem medo. Confesso que minhas pernas tremeram, afinal não há café neste mundo que me faça recuperar toda a energia que perdi neste mês, mas logo firmei meu corpo ao chão.

No transcol lotado, percebi o porquê de minha recusa de sair de casa. Eu baixinha, ainda inexperiente, me espremendo entre braços, bundas e peitos, me via esticada tentando alcançar a alça no teto. Um braço de cada lado, e meus pés se punham na ponta dos dedos, justo eu que nunca tive vocação pra bailarina. Na curva percebi o valor de um ônibus lotado, pois os tórax ali dispostos e estirados não me deixaram cair e espatifar no chão com a delicadeza de uma jaca. E eu ali com os braços para o alto e as pernas tencionadas me via num impasse de ironia invertida: ressuscitada pelo café e crucificada num navio negreiro pós-moderno.

Trabalho, café, trabalho, café, trabalho, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, trabalho, café, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, trabalho, café, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, café, trabalho, trabalho, café, trabalho, café, café, café, café, ônibus lotado.

No final da noite, frenética, e por razões lógicas, insônia. Já até encontrei uma categoria que inventei para me enquadrar em alguma coisa, afinal neste mundo não dá pra viver a deriva, temos que nos enquadrar em alguma categoria. A minha: esquisofrenética. Esquiso por parte da insônia e frenética por conta do café.

E mamãe insistia em dizer:
-Quem tomou todo o café?

E eu respondia com os olhos arregalados:
- Você é claro!

Um comentário:

Matita Perê disse...

muito bom!
excelente estréia!!!