sexta-feira, 24 de abril de 2009

Liberdade aos homossexuais não basta.
Pois, liberdade sem direitos torna-se vazia,
silenciosa e cheia de vísceras.
Liberdade não é ponto, é por essência, transição.
A virtude de ser livre é uma passagem, uma meta, que na linha reta encontra uma liberdade liberta, e por reconhecimento, chegam às almas dos que discriminam, aos espíritos das leis e encontram a felicidade que é fim e não meio.
(minha autoria)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Quase diário fantasiado pelo alterego ou Diálogo tentando conciliar id e superego

É tudo que eu preciso, um papel, uma caneta e um cigarro. Daí me lembro do aeroporto de São Paulo, e toda aquela nostalgia barata de ter viajado. Aquele sol aquecendo o corpo, nada além do corpo, e eu empenhada em fumar um cigarro, um desejo de um abraço e nada a minha frente (ou tanto concreto que chegava ao nada). Talvez um pouco mais pragmática. A objetividade é extremamente necessária aos loucos que se perdem tão fácil na dura realidade. Restaram lembranças, nada além de lembranças e meu corpo, com aquele cigarro barato que além de nostalgia me provocava náusea. De me empenhar a fumar, foi o que restou das lembranças de saber que sou latina. Latida, latente. Agora vou aprender a cantar. Quem canta não pode ser infeliz. Serei uma a(u)(r)tista completa, me aventurei nas artes práticas, escrita, e agora canto. Só na arte do amor é que me fodo. Mas também não dá pra ter tudo na vida, sou uma boa jogadora de buraco, e sabe como dizem: “sorte no jogo, azar no amor”. Lá se vai mais um com o coração partido. Não, espere! Aquele ali é um espelho. Pra cada dedo indicador apontado, outros três apontam pra você mesmo. É mais fácil amar uma ilusão do que a dura realidade. Sou a desengonçada tentando eternamente ajeitar a vida, não por opção, mas por não saber lidar com o cotidiano dos bancos mercenários, do concerto das máquinas, da burocracia de ser empregada, das monografias desafinadas, e por ter perdido metade da minha memória no meio do caminho (desmesmoriada por genética). Não sou lésbica, não sou puta, não sou drogada, mas por me simpatizar com eles e talvez respeitar tudo isso, acabo me tornando um deles. Deslocada do mundo que exige um pragmatismo que não consigo alcançar por ser desengonçada. Voltando ao aeroporto de São Paulo, tudo se resume ali, naquele sol e eu sozinha esperando algo que não sabia bem o que e como viria. Veio. Veio a vida é claro, inevitável. Estava voltando pra casa de um mês de viajem pela américa latina e tudo voltaria a ser como antes. Ter a liberdade tão desejada por todos não é fácil, carregar a cruz dos outros nunca é fácil, extravasar a loucura dos outros nunca é fácil (mas o mundo precisa de Jesus Cristo). Queria ser normal, já se foi, alguma coisa perverteu meu caminho, acho que ainda na barriga de minha mãe. Não quero ser hedonista, quero respeitar meus limites. Mas no aeroporto de São Paulo eu podia sentir que tudo era possível. E sempre restam lembranças. Não sei acabar este texto, porque a vida continua, e por ser demasiado pessoal, eu continuo a vida, meus amores insensatos, minha constante busca por pragmatismo, minha monografia interminada e eu aqui na fila do banco esperando horas pra ser atendida pra poder pagar minhas dividas. Minha senha chegou, levanto atordoada, catando caneta e papel e procurando meus óculos pra saber qual mesa deveria me dirigir. A moça atrás do balcão me sorri simpática e eu descomposta, meu caso não é tão grave assim. Mas eu agoniada: “fecha tudo moça, encerre todas as minhas contas” – ela ri. Eu definitivamente não sei mexer com isso. Por vezes perco minha caneta em meu cabelo e saio a procurar – “onde está a caneta que estava agora pouco aqui meu deus, me ajuda a procurar” – pra meia hora mais tarde encontrá-la prendendo meus cachos que agora não são mais tão cacheados assim. Tudo bem eu assumo minha culpa, mas tenho pavor de quem não assume a própria culpa, nada mais covarde. E agora eu tenho que carregar minha casa em minha bolsa por ter que passar o dia inteiro resolvendo pepino (quem inventou essa gíria?), mas tudo bem, eu sobrevivo à pão na chapa. Só preciso de um papel, uma caneta (e agora um cigarro) pra reinventar meu mundo.

sexta-feira, 13 de março de 2009

A EXCOMUNHÃO DA VÍTIMA

Parabéns aos poetas desconhecidos da mídia, poetas dos sertões, das mazelas, mas verdadeiros poetas brasileiros.

Peço à musa do improviso
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria,
Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.

Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.

Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.

Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.

O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.

Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina, sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.

É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.

Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda,
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.

Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.

E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão.

O poeta Miguezim da Princesa é da Paraíba
Merece muito mais do que uma postagem.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Pelo Dia Internacional de Luta das Mulheres

Pagu.

Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão
Eu sou pau pra toda obra, Deus dá asas à minha cobra
Minha força não é bruta, não sou freira nem sou puta

Porque nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é
bunda
Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem
Nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem

Sou rainha do meu tanque, sou pagu indignada no palanque
Fama de porra-louca, tudo bem, minha mãe é Maria ninguém
Não sou atriz, modelo, dançarina
Meu buraco é mais em cima

Porque nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é
bunda
Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem
Nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone, sou mais macho que muito homem

Para todas as libertinas e libertadas mulheres.
Em especial para as mulheres deste blog.

domingo, 8 de março de 2009

Momentos bizarros e tristes do mundo de Camila

A alguns anos parei de fumar maconha porque acreditava que o mundo tava ficando doido, e numa crise de alienista comecei a pensar que o doido deste mundo era eu, afinal coisas que para mim eram ridiculamente absurdas pareciam normais aos olhos da sociedade.
Pois bem, minha crise passou e volto a achar que doido é este mundo mesmo. Ainda mais quando leio no jornal que um padre excomungou uma menina de nove anos por ter feito aborto de gêmeos após ser estuprada por seu padrasto. E não satisfeito só com a negação de uma menina de 9 anos, excomungou o médico que realizou o aborto e a mãe da menina. O mais ridículo foi não ter excomungado o estuprador. Agora só falta a igreja querer legalizar o estupro.
Para mim não há tamanho para a hipocrisia da igreja que de uma maneira um pouco sutil acaba defendendo seus padres pedófilos e condenando meninas inocentes. O argumento que ele se utiliza é que os bebes não tinha culpa. Mas e a menina teria que pagar o preço pelo resto de sua vida.
Respeito quem não é favorável ao aborto. Mas para mim parece tão claro dar o direito a mulher decidir sobre seu próprio corpo, até porque não acredito que liberar o aborto vá fazer com que suas taxas aumentem, mas sim dar estrutura as mulheres que o querem fazer, e o fazem independente da legalização. E quem não é católico e não acredita nesse negócio de vida desde o embrião, não tem o direito de fazer sua escolha antes que uma igreja hipócrita descida por ela?
Sim, não tenho medo em admitir que sou totalmente favorável ao aborto, por mais polêmica que essa opinião possa parecer. Para mim, pior são as mulheres que realizam aborto com remédio e em clinicas clandestina que cobram absurdos e sem a menor infra-estrutura. E mesmo que não fosse a favor, acredito que cada indivíduo tem a capacidade de decidir o que é melhor para sua vida, mesmo que eu não concorde.
Achei a postagem coveniente para hoje, já que dia das mulheres. E gostaria de lembrar de um grupo de mulheres católicas favorável ao aborto, composto inclusive por freiras e que se intitulam:
MULHERES PELO DIREITO DE DECIDIR.
pra quem quiser saber mais é só procurar no google.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Momentos bizarros e engraçados do fantástico mundo de Camila (rs.)

Ontem vi uma reportagem do ESTV primeira edição sobre consumismo. Em uma parte da reportagem entrevistaram um rapaz, acredito que tenha entre 25 e 30 anos, ganhava cerca de mil reais por mês, negro ou mulato se preferir (tenho um pouco de aversão a este nome, até medo de pronunciar, coisa de cientista social, sabe? Mas ainda não achei outra palavra pra designar nós mestiço, e como pra mim pior que mulato é dizer moreno ou moreninho... comecei a achar que cor de mula nem é tão ruim assim, passei a ver como uma forma cultural de dizer, afinal porque ter cor de mula é tão ruim? eu sei que tem um monte de simbolismo negativo mas tomei a decisão na minha vida de ver as coisas pelo lado positivo, a mulinha é tão bonitinha, trabalhadora, agüente firme o tranco, isso não pode ser tão ruim assim,.... enfim... não é isso que eu quero dizer). Fizeram um teste com o rapaz para saber se ele era consumista e o resultado, me pareceu óbvio até, foi que SIM, ele tinha o perfil de uma pessoa consumista e mão aberta (eles realmente usaram este termo, que aliás eu adoro... melhor que mão-de-vaca) Olhando pra cara do moço com meu olhar biônico que disseca tudo, mesmo que no mundo da fantasia, o moço tinha mesmo cara de quem gostava de bancar uma cervejada num churrasquino com os amigos (quer coisa melhor na vida?... me desculpem os vegetarianos deste blog, rs). Mas o mais legal foi a resposta do cara... me surpreendeu. Enquanto todo mundo ficaria preocupado com isto, repensando a economia doméstica, ele disse algo do tipo.... “que bom né, isso é bom! O Brasil ta precisando que a gente consuma mesmo, pra sair da crise, com essa crise o melhor é consumir pra ajudar o país, eu to fazendo minha parte...”
Eu amo o patriotismo deste povo, rsrsrsrs.
E não foi isso que o Lula disse!?!?!
Até o cara que fazia a reportagem ficou surpreso com a resposta, um pouco sem saber o que dizer.... Afinal a reportagem era pra dizer que devemos controlar o nosso consumismo e poupar um pouco.
Pois bem, bem vindos a sociedade do consumo!
Eu também faço minha parte... o pouco que me cai as mãos gasto tudo com cerveja, rs. Talvez por isso tenha me simpatizado tanto com o moço... se ele gostar de uma cervejinha como eu imaginei no fantástico mundo de Camila.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Ofiovermelho

A vida está por um fio.
Fio elétrico,
fio de angústia,
fio de prazer, telefônico,
digital.
O computador imita o cérebro
e o fio o coração.
Ontem salvei-me por um fio,
um tiro de raspão.
Uma polícia comunica outra,
que comunica outra,
que comunica outra;
não usam fio,
só o maldito rádio.
O quarteirão está cercado.
Os reféns: você e eu. Nós.
Começa o tiroteio,
VOCÊ MORRE,
eu me salvei pelo triscar de um fio.
A notícia se espalhou.
O equilibrista em cima do fio quase caiu,
quando viu aquele tablóide vil:
EU ESTOU VIVO!
O fio da navalha
corta o céu da boca em tons vermelhos.
Não adianta gritar! Cortei o fio do telefone.
Não há choro que me valha.
O fio umbilical está enrolado no pescoço do meu filho.
SOCORRO!
Minha mulher é um poste,
com a cabeça repleta de fios emaranhados.
O rio caudaloso, d’águabundante
Não passa agora de um fio quase partido
A mulher secou!
A polícia atira filas e fios de chumbo
Meu rosto só sabe escorrer fios d’água vermelha.
Fio de uma grande puta.
Qual títere que corta o fio da confiança
De quem o controla, de quem o manipula,
E foge não deixando nem um fio de poeira,
E foge... e foge... e não faz outra coisa que não seja fugir.
Alucinado qual criança.
Foge pra não precisar admitir que não sabe dançar sozinho.
De que vale um equilibrista sem a altura do fio esticado?
Pronto, o filho morreu.
Você e o filho estamortos
E se mortos, estáticos.
Paralisados de um furor nunca visto,
Mostram vísceras imensas.
Se ontem me salvei
É porque os intrépidos estão mortos.
Fio de repente um tapete mágico,
Com fios de diamante macio,
Para que os fortes limpem seus sapatos.
A lâmina é sutil até o ponto
Onde o fio nem é tão afiado assim.
Se ontem me salvei
É porque não há consenso,
Não há fio que valha o estupor,
Não há lágrima que valha o choro,
Todo fio tem seu fim
Todo fio tem seu início,
No começo mesmo do mundo
Onde as vozes’inda não ecoavam
Onde o fio nem era tão afiado assim.
Não há fio contínuo
Nem tão pouco separado.
A própria contra-mola é um fio retorcido
Que resiste à força de ser reto
No anteparo obliquo
Que separa por um fio
O presente do futuro.
é sobre seu imenso corpo
que escorre o fio do azeite
e rodelas de cebolas, um ornamento
lá no local onde se fia
exatamente o fiador.


Foi isso! Retirava dos dentes o fiapo
Enquanto assistia traquilamente
A tv do fiasco.

Autor desconhecido.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Pareço Moderno (eu sei... rsrsrsrs)

Gosto de cinema, ponto
vivo cheio de manias
tenho uma certa ...
pré-dislexia

Às vezes eu surto mesmo
mudo de assuntos
sumo e não assumo
a minha lucidez

Pareço moderno a te procurar

Caio na balada, admito
Alimento meu espírito
com litros de café
e saio pra dançar

Sempre quando acordo cedo
crio uma canção maluca
ligada ao sonho e homenagem a Tua

Pareço modernoa te procurar

Toda vez que eu a encontro
perco o chão, fico sem jeito
quero trucida-la
a esmo
e não partirei enquanto não conseguir meu feito

Sei que pego mal contigo
minha nóia eu não escondo
Sérgio Sampaio vai chegar pra lhe dizer

que eu, que eu, que eu

Pareço moderno,
pareço Roberto
a te procurar

(Cérebro Eletrônico)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Pensamento - Arnaldo Antunes




Pensamento
Arnaldo Antunes

Pensamento que vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Meu sobrenome é angústia
Meu passado me embrulha o estômago
Meu presente me dá um nó na garganta
Meu futuro me dá calafrios
Sensações da minha angústia
Como cada estação do ano ela muda
No verão é vermelha e intensa
No inverno é cinza como o céu
No outono se torna vazia, como as árvores que perdem suas folhas, é uma ausência de cor
Na primavera ela se revigora, assim como o desabrochar das flores
O tempo, as estações, e o sobrenome podem mudar mas não deixam de existir, fazem parte da vida
Assim como a minha incessante angústia

Autoria própria.

domingo, 14 de dezembro de 2008

O mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa, que cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem do outro lado; e nenhum entre nós há de transgredir esta divisa, nenhum entre nós há de estender sobre ela sequer a vista, nenhum entre nós há de cair jamais na fervura desta caldeira insana, onde uma química frívola tenta dissolver e recriar o tempo; não se profana impunemente ao tempo a substância que só ele pode empregar nas transformações, não lança contra ele o desafio quem não receba de volta o golpe implacável do seu castigo; ai daquele que brinca com fogo: terá as mãos cheias de cinza; ai daquele que se deixa arrastar pelo calor de tanta chama: terá a insônia como estigma; ai daquele que deita as costas nas achas desta lenha escusa: há de purgar todos os dias; ai daquele que cair e nessa queda se largar: há de arder em carne viva; ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que se antecipa no processo das mudanças: terá as mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um branco frio, ou quem sabe sepulcral, mas sempre a negação de tanta intensidade e tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que quer viver; cuidem-se os apaixonados, afastando dos olhos a poeira ruiva que lhes turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam turbilhões confusos, expurgando do humor das glândulas o visgo peçonhento e maldito; erguer uma cerca ou guardar simplesmente o corpo, são esses os artifícios que devemos usar para impedir que as trevas de um lado invadam e contaminem a luz do outro, afinal, que força tem o redemoinho que varre o chão e rodopia doidamente e ronda a casa feito fantasma, se não expomos nossos olhos à sua poeira? é através do recolhimento que escapamos ao perigo das paixões, mas ninguém no seu entendimento há de achar que devamos sempre cruzar os braços, pois em terras ociosas é que viceja a erva daninha: ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a terra para lavrar, ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a parede para erguer, ninguém ainda em nossa casa há de cruzar os braços quando existe o irmão para socorrer; caprichoso como uma criança, não se deve contudo retrair-se no trato do tempo, bastando que sejamos humildes e dóceis diante de sua vontade, abstendo-nos de agir quando ele exigir de nós a contemplação, e só agirmos quando ele exigir de nós a ação, que o tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto, é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens tristes, o consolo aos desamparados, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o repouso aos sem sossego, a paz aos intranqüilos, a umidade às almas secas; satisfaz os apetites moderados, sacia a sede aos sedentos, a fome aos famintos, dá a seiva aos que necessitam dela, é capaz ainda de distrair a todos com seus brinquedos; em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo,

RADUAN NASSAR

LAVOURA ARCAICA

sábado, 29 de novembro de 2008


Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança
Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade
Bom Conselho
Composição: Chico Buarque

domingo, 2 de novembro de 2008

Trampolim

Sem olhar, sem respirar
Sem rir, sem pensar, sem falar
Só te provo um lugar
Qualquer piscina ou mar de Amaralina

O amor não é mais do que o ato
Da gente ficar
No ar antes de mergulhar
Antes de mergulhar

Dance, dance, cante, cante
Muito alto, sem medo de tudo
De nada, sem medo de errar

Vejo uma boca vermelhar galhar
A paixão não é mais do que o ato
Da gente ficar
No ar antes de mergulhar
Antes de mergulhar

Maria Betânhia

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

E agora, José?

A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Como encarar a morte?


O Triunfo da Morte - Peter Brueghel

Uma pessoa que conhecia partiu, deixou seu corpo, mas a lembranças estarão em mim. E apesar da morte ser minha única certeza, por mais sabido, a ignoramos e ela vêm e novamente me passa uma rasteira.

Como encarar a morte.

Carlos Drummond de Andrade

De longe

Quatro bem-te-vis levam nos bicoso batel de ouro e lápis-lazúli, e pousando-o sobre uma acácia cantam o canto costumeiro. O barco lá fica banhado de brisa aveludada, açúcar, e os bem-te-vis, já esquecidos de perpassar, dormem no espaço.

À meia distância

Claridade infusa na sombra, treva implícita na claridade?Quem ousa dizer o que viu, se não viu a não ser em sonho?Mas insones tornamos a vê-lo e um vago arrepio vara a mais íntima pele do homem. A superfície jaz tranquila.

De lado

Sente-se já, não a figura, passos na areia, pés incertos, avançando e deixando verum certo cógifo de sandálias. Salvo rosto ou contorno explícito, como saber que nos procura o viajante sem identidade?Algum ponto em nós se recusa.

De dentro

Agora não se esconde mais. Apresenta-se, corpo inteiro, se merece nome de corpo o gás de um estado indefinível. Seu interior mostra-se aberto. Promete riquezas, prêmios,mas eis que falta curiosidade, e todo ferrão de desejo.

Sem vista

Singular, sentir não sentindo ou sentimento inexpresso de si mesmo, em vaso coberto de resina e lótus e sons. Nem viajar nem estar quedo em lugar algum do mundo, só o não saber que afinal se sabe e, mais sabido, mais se ignora.