domingo, 8 de março de 2009

Momentos bizarros e tristes do mundo de Camila

A alguns anos parei de fumar maconha porque acreditava que o mundo tava ficando doido, e numa crise de alienista comecei a pensar que o doido deste mundo era eu, afinal coisas que para mim eram ridiculamente absurdas pareciam normais aos olhos da sociedade.
Pois bem, minha crise passou e volto a achar que doido é este mundo mesmo. Ainda mais quando leio no jornal que um padre excomungou uma menina de nove anos por ter feito aborto de gêmeos após ser estuprada por seu padrasto. E não satisfeito só com a negação de uma menina de 9 anos, excomungou o médico que realizou o aborto e a mãe da menina. O mais ridículo foi não ter excomungado o estuprador. Agora só falta a igreja querer legalizar o estupro.
Para mim não há tamanho para a hipocrisia da igreja que de uma maneira um pouco sutil acaba defendendo seus padres pedófilos e condenando meninas inocentes. O argumento que ele se utiliza é que os bebes não tinha culpa. Mas e a menina teria que pagar o preço pelo resto de sua vida.
Respeito quem não é favorável ao aborto. Mas para mim parece tão claro dar o direito a mulher decidir sobre seu próprio corpo, até porque não acredito que liberar o aborto vá fazer com que suas taxas aumentem, mas sim dar estrutura as mulheres que o querem fazer, e o fazem independente da legalização. E quem não é católico e não acredita nesse negócio de vida desde o embrião, não tem o direito de fazer sua escolha antes que uma igreja hipócrita descida por ela?
Sim, não tenho medo em admitir que sou totalmente favorável ao aborto, por mais polêmica que essa opinião possa parecer. Para mim, pior são as mulheres que realizam aborto com remédio e em clinicas clandestina que cobram absurdos e sem a menor infra-estrutura. E mesmo que não fosse a favor, acredito que cada indivíduo tem a capacidade de decidir o que é melhor para sua vida, mesmo que eu não concorde.
Achei a postagem coveniente para hoje, já que dia das mulheres. E gostaria de lembrar de um grupo de mulheres católicas favorável ao aborto, composto inclusive por freiras e que se intitulam:
MULHERES PELO DIREITO DE DECIDIR.
pra quem quiser saber mais é só procurar no google.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Momentos bizarros e engraçados do fantástico mundo de Camila (rs.)

Ontem vi uma reportagem do ESTV primeira edição sobre consumismo. Em uma parte da reportagem entrevistaram um rapaz, acredito que tenha entre 25 e 30 anos, ganhava cerca de mil reais por mês, negro ou mulato se preferir (tenho um pouco de aversão a este nome, até medo de pronunciar, coisa de cientista social, sabe? Mas ainda não achei outra palavra pra designar nós mestiço, e como pra mim pior que mulato é dizer moreno ou moreninho... comecei a achar que cor de mula nem é tão ruim assim, passei a ver como uma forma cultural de dizer, afinal porque ter cor de mula é tão ruim? eu sei que tem um monte de simbolismo negativo mas tomei a decisão na minha vida de ver as coisas pelo lado positivo, a mulinha é tão bonitinha, trabalhadora, agüente firme o tranco, isso não pode ser tão ruim assim,.... enfim... não é isso que eu quero dizer). Fizeram um teste com o rapaz para saber se ele era consumista e o resultado, me pareceu óbvio até, foi que SIM, ele tinha o perfil de uma pessoa consumista e mão aberta (eles realmente usaram este termo, que aliás eu adoro... melhor que mão-de-vaca) Olhando pra cara do moço com meu olhar biônico que disseca tudo, mesmo que no mundo da fantasia, o moço tinha mesmo cara de quem gostava de bancar uma cervejada num churrasquino com os amigos (quer coisa melhor na vida?... me desculpem os vegetarianos deste blog, rs). Mas o mais legal foi a resposta do cara... me surpreendeu. Enquanto todo mundo ficaria preocupado com isto, repensando a economia doméstica, ele disse algo do tipo.... “que bom né, isso é bom! O Brasil ta precisando que a gente consuma mesmo, pra sair da crise, com essa crise o melhor é consumir pra ajudar o país, eu to fazendo minha parte...”
Eu amo o patriotismo deste povo, rsrsrsrs.
E não foi isso que o Lula disse!?!?!
Até o cara que fazia a reportagem ficou surpreso com a resposta, um pouco sem saber o que dizer.... Afinal a reportagem era pra dizer que devemos controlar o nosso consumismo e poupar um pouco.
Pois bem, bem vindos a sociedade do consumo!
Eu também faço minha parte... o pouco que me cai as mãos gasto tudo com cerveja, rs. Talvez por isso tenha me simpatizado tanto com o moço... se ele gostar de uma cervejinha como eu imaginei no fantástico mundo de Camila.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Ofiovermelho

A vida está por um fio.
Fio elétrico,
fio de angústia,
fio de prazer, telefônico,
digital.
O computador imita o cérebro
e o fio o coração.
Ontem salvei-me por um fio,
um tiro de raspão.
Uma polícia comunica outra,
que comunica outra,
que comunica outra;
não usam fio,
só o maldito rádio.
O quarteirão está cercado.
Os reféns: você e eu. Nós.
Começa o tiroteio,
VOCÊ MORRE,
eu me salvei pelo triscar de um fio.
A notícia se espalhou.
O equilibrista em cima do fio quase caiu,
quando viu aquele tablóide vil:
EU ESTOU VIVO!
O fio da navalha
corta o céu da boca em tons vermelhos.
Não adianta gritar! Cortei o fio do telefone.
Não há choro que me valha.
O fio umbilical está enrolado no pescoço do meu filho.
SOCORRO!
Minha mulher é um poste,
com a cabeça repleta de fios emaranhados.
O rio caudaloso, d’águabundante
Não passa agora de um fio quase partido
A mulher secou!
A polícia atira filas e fios de chumbo
Meu rosto só sabe escorrer fios d’água vermelha.
Fio de uma grande puta.
Qual títere que corta o fio da confiança
De quem o controla, de quem o manipula,
E foge não deixando nem um fio de poeira,
E foge... e foge... e não faz outra coisa que não seja fugir.
Alucinado qual criança.
Foge pra não precisar admitir que não sabe dançar sozinho.
De que vale um equilibrista sem a altura do fio esticado?
Pronto, o filho morreu.
Você e o filho estamortos
E se mortos, estáticos.
Paralisados de um furor nunca visto,
Mostram vísceras imensas.
Se ontem me salvei
É porque os intrépidos estão mortos.
Fio de repente um tapete mágico,
Com fios de diamante macio,
Para que os fortes limpem seus sapatos.
A lâmina é sutil até o ponto
Onde o fio nem é tão afiado assim.
Se ontem me salvei
É porque não há consenso,
Não há fio que valha o estupor,
Não há lágrima que valha o choro,
Todo fio tem seu fim
Todo fio tem seu início,
No começo mesmo do mundo
Onde as vozes’inda não ecoavam
Onde o fio nem era tão afiado assim.
Não há fio contínuo
Nem tão pouco separado.
A própria contra-mola é um fio retorcido
Que resiste à força de ser reto
No anteparo obliquo
Que separa por um fio
O presente do futuro.
é sobre seu imenso corpo
que escorre o fio do azeite
e rodelas de cebolas, um ornamento
lá no local onde se fia
exatamente o fiador.


Foi isso! Retirava dos dentes o fiapo
Enquanto assistia traquilamente
A tv do fiasco.

Autor desconhecido.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Pareço Moderno (eu sei... rsrsrsrs)

Gosto de cinema, ponto
vivo cheio de manias
tenho uma certa ...
pré-dislexia

Às vezes eu surto mesmo
mudo de assuntos
sumo e não assumo
a minha lucidez

Pareço moderno a te procurar

Caio na balada, admito
Alimento meu espírito
com litros de café
e saio pra dançar

Sempre quando acordo cedo
crio uma canção maluca
ligada ao sonho e homenagem a Tua

Pareço modernoa te procurar

Toda vez que eu a encontro
perco o chão, fico sem jeito
quero trucida-la
a esmo
e não partirei enquanto não conseguir meu feito

Sei que pego mal contigo
minha nóia eu não escondo
Sérgio Sampaio vai chegar pra lhe dizer

que eu, que eu, que eu

Pareço moderno,
pareço Roberto
a te procurar

(Cérebro Eletrônico)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Pensamento - Arnaldo Antunes




Pensamento
Arnaldo Antunes

Pensamento que vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento, dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Meu sobrenome é angústia
Meu passado me embrulha o estômago
Meu presente me dá um nó na garganta
Meu futuro me dá calafrios
Sensações da minha angústia
Como cada estação do ano ela muda
No verão é vermelha e intensa
No inverno é cinza como o céu
No outono se torna vazia, como as árvores que perdem suas folhas, é uma ausência de cor
Na primavera ela se revigora, assim como o desabrochar das flores
O tempo, as estações, e o sobrenome podem mudar mas não deixam de existir, fazem parte da vida
Assim como a minha incessante angústia

Autoria própria.

domingo, 14 de dezembro de 2008

O mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa, que cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem do outro lado; e nenhum entre nós há de transgredir esta divisa, nenhum entre nós há de estender sobre ela sequer a vista, nenhum entre nós há de cair jamais na fervura desta caldeira insana, onde uma química frívola tenta dissolver e recriar o tempo; não se profana impunemente ao tempo a substância que só ele pode empregar nas transformações, não lança contra ele o desafio quem não receba de volta o golpe implacável do seu castigo; ai daquele que brinca com fogo: terá as mãos cheias de cinza; ai daquele que se deixa arrastar pelo calor de tanta chama: terá a insônia como estigma; ai daquele que deita as costas nas achas desta lenha escusa: há de purgar todos os dias; ai daquele que cair e nessa queda se largar: há de arder em carne viva; ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que se antecipa no processo das mudanças: terá as mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um branco frio, ou quem sabe sepulcral, mas sempre a negação de tanta intensidade e tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que quer viver; cuidem-se os apaixonados, afastando dos olhos a poeira ruiva que lhes turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam turbilhões confusos, expurgando do humor das glândulas o visgo peçonhento e maldito; erguer uma cerca ou guardar simplesmente o corpo, são esses os artifícios que devemos usar para impedir que as trevas de um lado invadam e contaminem a luz do outro, afinal, que força tem o redemoinho que varre o chão e rodopia doidamente e ronda a casa feito fantasma, se não expomos nossos olhos à sua poeira? é através do recolhimento que escapamos ao perigo das paixões, mas ninguém no seu entendimento há de achar que devamos sempre cruzar os braços, pois em terras ociosas é que viceja a erva daninha: ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a terra para lavrar, ninguém em nossa casa há de cruzar os braços quando existe a parede para erguer, ninguém ainda em nossa casa há de cruzar os braços quando existe o irmão para socorrer; caprichoso como uma criança, não se deve contudo retrair-se no trato do tempo, bastando que sejamos humildes e dóceis diante de sua vontade, abstendo-nos de agir quando ele exigir de nós a contemplação, e só agirmos quando ele exigir de nós a ação, que o tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto, é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens tristes, o consolo aos desamparados, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o repouso aos sem sossego, a paz aos intranqüilos, a umidade às almas secas; satisfaz os apetites moderados, sacia a sede aos sedentos, a fome aos famintos, dá a seiva aos que necessitam dela, é capaz ainda de distrair a todos com seus brinquedos; em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo,

RADUAN NASSAR

LAVOURA ARCAICA

sábado, 29 de novembro de 2008


Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança
Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade
Bom Conselho
Composição: Chico Buarque

domingo, 2 de novembro de 2008

Trampolim

Sem olhar, sem respirar
Sem rir, sem pensar, sem falar
Só te provo um lugar
Qualquer piscina ou mar de Amaralina

O amor não é mais do que o ato
Da gente ficar
No ar antes de mergulhar
Antes de mergulhar

Dance, dance, cante, cante
Muito alto, sem medo de tudo
De nada, sem medo de errar

Vejo uma boca vermelhar galhar
A paixão não é mais do que o ato
Da gente ficar
No ar antes de mergulhar
Antes de mergulhar

Maria Betânhia

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

E agora, José?

A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, pra onde ?


Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Como encarar a morte?


O Triunfo da Morte - Peter Brueghel

Uma pessoa que conhecia partiu, deixou seu corpo, mas a lembranças estarão em mim. E apesar da morte ser minha única certeza, por mais sabido, a ignoramos e ela vêm e novamente me passa uma rasteira.

Como encarar a morte.

Carlos Drummond de Andrade

De longe

Quatro bem-te-vis levam nos bicoso batel de ouro e lápis-lazúli, e pousando-o sobre uma acácia cantam o canto costumeiro. O barco lá fica banhado de brisa aveludada, açúcar, e os bem-te-vis, já esquecidos de perpassar, dormem no espaço.

À meia distância

Claridade infusa na sombra, treva implícita na claridade?Quem ousa dizer o que viu, se não viu a não ser em sonho?Mas insones tornamos a vê-lo e um vago arrepio vara a mais íntima pele do homem. A superfície jaz tranquila.

De lado

Sente-se já, não a figura, passos na areia, pés incertos, avançando e deixando verum certo cógifo de sandálias. Salvo rosto ou contorno explícito, como saber que nos procura o viajante sem identidade?Algum ponto em nós se recusa.

De dentro

Agora não se esconde mais. Apresenta-se, corpo inteiro, se merece nome de corpo o gás de um estado indefinível. Seu interior mostra-se aberto. Promete riquezas, prêmios,mas eis que falta curiosidade, e todo ferrão de desejo.

Sem vista

Singular, sentir não sentindo ou sentimento inexpresso de si mesmo, em vaso coberto de resina e lótus e sons. Nem viajar nem estar quedo em lugar algum do mundo, só o não saber que afinal se sabe e, mais sabido, mais se ignora.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O mundo das crises: uma análise miscelânea Camilana

Recentemente li uma pesquisa no DATA-FOLHA traçando o perfil da juventude hoje. Um artigo em especial, de um psicanalista chamado Contardo Calligaris, me chamou a atenção: A adolescência acabou? Sem nostalgias baratas, conservadoras e burras, não é esta intenção deste texto.
Nasci em 1984, e penso que se eu pudesse traçar uma marco na história do Brasil escolheria este ano. 1984 foi o ano-marco para a redemocratização do país, ano que marca a transição da ditadura para a democracia, ano de luta (?), ano em que ocorreu as Diretas Já, ano do livro de George Orwell (rs), muito atual naquela época e hoje (quem não leu vale a pena, é um clássico).
Ano de luta? Pois bem. Nasci em meio a esse furduncio e todo rearranjo da organização do sistema político, social, econômico, cultural, etc. e tal do país. Uma nostalgia de luta e um sistema voltado para o conhecimento matemático me acompanharam durante toda minha estadia no sistema educacional. De um lado alguns professores de história relembrando as lutas e conquistas dos movimentos que pediam a democratização do país e dizendo que os jovens, no caso nós, éramos o futuro do Brasil (quanta responsabilidade, hein?). E de outro lado, cinco aulas de matemática por semana, além de física e química e apenas três de história e três de geografia que se dividia em geo-física e geo-política. Enfim, de acordo com essa estruturação do sistema educacional, pra mim, me parece claro que a educação básica não estava voltada para o aluno pensar e refletir sobre sua realidade.
Mas essa angústia em meu peito, de uma história de luta e conquistas dos movimentos sociais me fascinavam, talvez por isso tenha escolhido fazer o curso de ciências sociais. Lembro-me bem de um professor de química, que vez o outra encontro nos corredores da UFES, fazer um questionamento em sala de aula sobre porquê o mapa do mundo se posicionava daquela maneira se de acordo com o espaço não há referencial que indique que o norte é para cima e o sul para baixo. Aquilo ficou encafifado na minha cabeça por um bom tempo, tanto que comento aqui.
Mas como em tudo na vida existem porém’s. Tudo bem, ficamos sabendo que Betinho Souza, Henfil, Darcy Ribeiro, Zuzu Angel e os tropicalistas Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, lutaram pelo direito da democracia e o direito de vender seus livros e discos e enterrar seus filhos. Mas a minha mãe e o meu pai não sabem de nada disso, assim como a mãe e pai de muitos amigos, e a minha avó nem sabe o que é ditadura.
Outro porém, acreditava-se que a democracia resolveria os problemas do Brasil, andava-se com um livro de Marx em baixo do braço e se diziam socialistas ou comunistas sem nunca terem lido uma página sequer do O Capital, e os que liam transformavam idéias grande em medíocres por serem pequenos, afinal era bonito ser socialista naquela época.
O mundo se mostrou mais complexo do que o direito de se vender livros e discos, ficou mais complexo entender em que realmente consiste a democracia, a realidade se mostrou mais complexa em relação as desigualdades sociais (afinal é só uma questão social? e o psicológico? e a história? e a política?)
De repente todos exigiam seu lugar ao sol, exigiam seus direitos, negos, brancos, pardos, indígenas, orientais, homossexuais, gays, lésbicas, transexuais, travestis, bi’s, hetros, os evangélicos, da quadrangular, universal, maranata, os candomblés, umbandistas, macumbeiros, cardecistas, católicos, ateus, os emos, punks, sertanejos, rockeiros, as putas e as carolas, os nordestinos, sulistas, e eu. E o direito de ser de direita, porque não? Um aluno me perguntou em sala de aula se uma pessoa não teria direito de ser racista desde que não fizesse mal a ninguém (essa doeu pra responder, afinal o menino tinha uma dose de razão).
Enfim, democracia hoje é um pouco isso, os religiosos se candidatando a cargos políticos em favor da moral e valores cristãos, os neo-nazistas se reunindo e defendendo a supremacia branca, pessoas defendendo a não legalização do aborto enquanto mulheres morrem ou fazem abortos de risco em clinicas fajutas ou com remédios em casa mesmo, ou se possuem dinheiro pagam absurdos. Democracia é um pouco ter direito de colocar silicone, botox, fazer plástica, ser loira ou morena. Mas e o coletivo, onde é que fica mesmo?
Enfim, mas e a juventude? Segundo o artigo de Calligaris, a rebeldia, que por tempos foi associada à juventude, não existe mais (ou talvez nunca tenha existido), o jovem hoje quer saber de trabalho, saúde e família, um emprego em que ele possa ter a próprio casa, sustentar sua família e todo ideal burguês, e um carro com som (aparentemente para poder ficar ouvindo música enquanto o mundo pára por conta do engarrafamento, [nota da autora]). Mas e o coletivo, onde fica mesmo?
Não, não tenho nostalgias, as gerações anteriores também cometeram suas falhas, e as de hoje pensam no próprio umbigo. E eu penso que o maior vitorioso nessa história é o capitalismo. Afinal ser rebelde hoje é andar de all star de 60 reais, camiseta de Che Guevara de 120 reais, óculos estilo Raul Seixas de 400 reais, e um carrinho velho de 16 mil, mas afinal, a liberdade não tem preço, use master card e parcele tudo em cinco vezes.
E eu aqui não posso nem desejar que os Estados Unidos da América se foda porque a gente acaba se ferrando junto. Ainda tenho que engolir que o mundo todo se mobilizando em favor de um país que promove guerras, mata seu próprio presidente e Martin Luter King, subjuga os pais mais fracos economicamente em favor da democracia capitalista para que todos possam ter o direito de comparar all star e comer um hambúrguer do Mac Donald, um merda de país que tem que ser engolido goela abaixo com um presidente terrorista que me provoca náusea.
Mas quer saber, uma parte de mim quer que o mundo entre em colapso mesmo, para que pelo menos possamos repensar toda a estrutura e forma de organização mundial. Vivemos e ainda louvamos instituições falidas como se fossem verdades absolutas ou única forma de conceber e organizar o mundo. Infelizmente a história já mostrou que só nos momentos de crise repensamos e refletimos nossos valores e instituições como família, escola, política. Meu único medo é que os evangélicos dominem o mundo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Abduzida

Já repararam como o consultório odontológico parece com aqueles filmes de ficção científica em que o extraterrestre rapta um terráqueo para abri-lo e examiná-lo. Foi mais ou menos assim que eu me senti naquela maca com aquele olinhos em cima de minha cabeça, aquelas mãos com luvas, máscaras, toucas, jalecos (tudo muito branco), fora aquelas brocas, pinças, sugador de saliva, tudo aquilo dentro da minha boca, que não é tão pequena, mas eu sou capaz de jurar que não cabia. E a moça com aquele suga-saliva, o que tinha de bonita tinha de desajeitada, quase me deixou desidratada, e por pouco não levou a minha língua com o dente, bochecha e tudo junto. Mas tenho que confessar, a vista lá de cima era linda!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

PARA OUVIDOS ATENTOS (Com o perdão do clichê)


Já faz um tempo, mas como muitos ainda não conhecem o som destes paulistanos, decidi que vale a pena tocar no assunto. Em 2004, já com alguma fama no circuito musical alternativo devido a intensidade de seus shows mais do que pela musica em si (isso é normal - e desejável - em se tratando de rock'n roll), a banda Ludovic lançou o disco "Servil", seu perturbado disco de estréia. Hoje eles lançam o disco "Idioma Morto", já reconhecidos pelo Brasil para quem é atento à produção roqueira em terras tupiniquin e sabe que, para além de Charlie brown e Tijuana, temos coisas como Móveis Coloniais de Acajú, Diagonal, a renovada Nação Zumbi, Mallu Magalhães o projeto 3 na Massa e a banda em questão, Ludovic. O novo disco está a disposição no site Trama Virtual (http://www.tramavirtual.com.br/), mas o velho só correndo atrás. Eu corri. Não muito, em tempos de mp3. Mas o fato é que, para quem gosta de um som visceral, louco e por vezes diabólico, e que tenha um pouco de sado-masoquista no que diz respeito a letras ("comparado a mim, ele é um semi-deus", é tudo que diz a letra de "ombro a Ombro"), vai sentir o sangue jorrando dessas letras e sacar porque, em tempos de tantas sub-sub classificações na musica, o simples rótulo de Rock já explica muita coisa. Dançar loucamente, se vestir de uma melancolia eufórica típica de um maníaco-depressivo e vibrar sem ter na verdade o que comemorar, por que o disco é um uivo de derrrota (terceiro clichê: ouvidos atentos, som visceral, e essa agora, uivo de derrota. Repararam?). Como se Ian Curtis, depois de assistir "O idiota" de Herzog e ouvir Iggy Pop, ao invés de se enforcar, tivesse gravado um disco com alguma banda punk enlouquecida. E o resultado é isso. Gritos e sussurros da melhor qualidade. Vou deixar uma amostra de uma letra, e amanhã baixarei o disco novo. Tente. E aproveite.
P.S: Sim, este é o título da Musica.
Teoria e Prática na voz de um Veterano Ofegante
Quanto ao discurso que eu deixei por fazer
É só outra coisa que eu deixei por fazer
Eu assumo a culpa, eu assumo a culpa.
Foi a pior ofensa que eu já ouvi
Mas foi a melhor oferta que eu já recebi.
Eu assumo a culpa, eu assumo a culpa,
Eu assumo a culpa.
Mande lembranças por mim.
Guarde os restos pra mim.

domingo, 10 de agosto de 2008

Não Vale A Pena

Ficou difícilTudo aquilo, nada disso

Sobrou meu velho vício de sonharPular de precipício em precipício

Ossos do ofício

Pagar pra ver o invisível

E depois enxergar

Que é uma pena

Mas você não vale a pena

Não vale uma fisgada dessa dor

Não cabe como rima de um poema

De tão pequeno

Mas vai e vem e envenena

E me condena ao rancor

De repente, cai o nível

E eu me sinto uma imbecil

Repetindo, repetindo, repetindo

Como num disco riscado

O velho texto batido

Dos amantes mal-amados

Dos amores mal-vividos

E o terror de ser deixada

Cutucando, relembrando, reabrindo

A mesma velha ferida

E é pra não ter recaída

Que não me deixo esquecer

Que é uma pena

Mas você não vale a pena

Maria Rita